quarta-feira, 21 de abril de 2010

O Parkour Não Existe!

O parkour não existe.
Ouvindo o último podkast (004) sobre método Natural acabei pensando no significado de “ser forte para ser útil”, ou “desenvolver suas capacidades humanas”, como George Hébert dizia... Acabei chegando à conclusão de que o “parkour” ou “parcours Du combattant” non ecxiste!
O método natural pode ser posto em prática: basta se isolar da civilização por um determinado período de tempo. Fugere Urbem. Vai pro meio do mato! Um, dois, três dias, uma semana, um mês... Ou até mesmo algumas poucas horas (quatro ou cinco). O que importa é o contato com o meio natural que te impõe as barreiras e te fornece os instrumentos para sua sobrevivência. Desligar celular. De preferência deixa-lo em casa. Só levar o mínimo possível. E se desafiar. O método natural é possível. Ele ainda existe (ou pelo menos pode existir) nos dias de hoje.
Mas e o parkour? A maioria dos praticantes vive navegando pela internet (sim, eu me incluo nessa, infelizmente), vendo vídeos, tópicos de treinos em comunidades... E só então sai de casa, normalmente com um destino pré-determinado, e muitas vezes o treino se restringe a um espaço limitado: uma determinada praça, um certo parque, etc. E então, aonde está o parkour? Aonde está a eficiência de movimentação? Aonde está a motivação real para treinar?
As origens do parkour são conhecidas pela maioria dos praticantes (felizmente). Vietnã. Guerra do Vietnã. Necessidade de ser rápido para resgatar os companheiros, para salvar vidas. Exposição continua ao risco, em prol do beneficio à vida do outro. Um risco de vida constante, mas que valeu à pena para milhares de soldados, pois assim eles ao menos se sentiram vivos. É o contato com a realidade que abre seus olhos, que te empurra pro abismo da fragilidade da sua própria existência e te obriga a se fortalecer (ou te deixa louco) pra sobreviver. Para poder continuar salvando vidas. Ser forte para ser útil. O parkour existiu no Vietnã. O parcours du combattant foi um evento, um fato histórico (embora seja negligenciado nas aulas de história das escolas).
Ai a historia desse fenômeno que existiu foi contada pra um moleque cheio de fantasias de Homem-Aranha. Ele se chama, como todos sabem (mais do que sabem sobre o Vietnã) David Belle. Fascinado pelo que seu pai contava, David começou a treinar com sua “tchurma”, formando vários grupos com nomes diferentes. Um deles, o Speed-Air-Man (só depois de ouvir um podkast mais antigo percebi que quando os franceses falam Speed-air-man com o soltaque deles soa como “spider-man”). Enfim, no começo era David, Foucan, Thomas, Kazuma. William Belle e vários outros que hoje integram a Parkour Generations, Majestic Force etc,etc,etc. E é engraçado pensar que no inicio do parkour brasileiros gastamos incontáveis horas debatendo se giro é ou não é parkour... Mais engraçado ainda é lembrar que o Belle, declarou em uma das suas entrevistas mais recentes (aquela em que ele tá de ovo virado falando que “parkour já deu o que tinha que dar”) que ele nunca gravou e divulgou os vídeos dele, e que ele nunca teve intenção de virar ator (“simplesmente aconteceu”). Pois bem, o youtube está repleto de vídeos gravados do Belle e da turma dele treinando, alguns dos quais, de tantos giros que tem, podem até ser chamados de “modinha”.





E você se pergunta: isso que o Belle fazia, em parte pra ganhar o respeito do pai, a quem ele se refere como uma pessoa que foi autoritária e rígida, era parcours de combattant? Hum, eu acho que não... Tanto que passou a se chamar “parkour”. Mas a verdade é que a essência que motivava o “parcours Du combattant” (o “parkour-original”) já tinha se perdido há muito tempo. O parkour em meio ao tiroteio e desespero foi enterrado com o final da Guerra do Vietnã. Isso que eles passaram a treinar não era parkour, eram simulações de movimentos que pertenceram ao parkour. E foi baseado nesse “pseudo-parkour” que pessoas de todos os cantos do mundo começaram a “treinar parkour”. Depois de um tempo surgiram outros estilos e influências muito fortes, principalmente vindos da Inglaterra, Bélgica (Speeders) e Rússia( até hoje tem gente que acha o “Dvinsclan foda!” mas não conhece o Oleg, fazer o que...).

Essa emergência brutal do parkour patrocinada pela mídia abriu campo pra interação, e chamou mais atenção para, os tricksters, os b-boys, os ginastas. Aqui no Rio até há pouco tempo a UERJ era um ponto de encontro de ginastas, circenses, b-boys, giradores e “parkourzeiros”. Mas, veja bem, não estou dizendo que o parkour não existe porque se miscigenou com outras “artes do movimento”. Estou dizendo que ele não existe pois todo o conceito no qual se baseia não existe mais. Vivemos uma outra realidade, muito mais cômoda. Isso é inegável!

Mas, “eu quero treinar parkour!”... Vai ficar querendo “champs”. Você pode ate treinar os movimentos semelhantes aos do parkour e “correr loucamente no flow-mais-gringo-da-face-da-terra”:





Mas nada disso vai ser o verdadeiro parkour, pois “ser forte pra ser útil” não vai ser uma verdade literal (no máximo algo filosófico, subjetivo ou com implicações indiretas). Como treinar o parkour então? Se aliste e vá à guerra (se bem que com a quantidade de tecnologia usada no Iraque vai rolar pouco parcours Du combattant lá).


E Que o flow esteja com você!
Sapo
Rio, 21./04/2010

segunda-feira, 1 de março de 2010

Questionário para Artigo de Parkour

Segue algumas perguntas que a Tathiana Maria aqui do Rio fez no começo do ano pra alguns tracers. A finalidade era fazer um artigo relacionando comportamento de tribos urbanas, parkour e consumismo. O artigo ficou muito interessante, e eu achei que seria válido postar minhas respostas que enviei por e-mail pra ela.


Idade e o que você faz

Me chamo Lucas Oliveira Mourão, tenho 19 anos e estudo Medicina. No parkour fui apelidado como Sapo.


O que é o parkour para você?



Parkour pra mim é tudo e nada ao mesmo tempo. Ele representa tantas coisas na minha vida e na minha personalidade, que acredito que qualquer definição não faria jus. Ele já faz parte de mim de um modo tão intenso que não chego sequer a pensar “vou treinar parkour”. Penso simplesmente “quero chegar até ali”, “quero subir até aquele ponto”, ou na maior parte do tempo “quero viver cada momento com a atenção que ele merece… quero ser simples e ao mesmo tempo eficiente”, “quero aproveitar ao máximo minhas possibilidades humanas”. Por que mesmo quando você não se locomove em um percurso onde existem pulos e muros para subir, você, como tracer consciente do que faz, pratica parkour. Recentemente li um texto de um traceur que treinou com Stephane, e ele relatava que ficou maravilhado com a forma do Stephane Vigroux andar na rua! Ele sempre buscava a forma mais benéfica de caminhar e desviar das pessoas e objetos. É justamente esse o maior treino de um tracer: a ausência de obstáculos visíveis.

Muitas vezes o treino real é um esforço de superação e aprimoramento pessoal em outros campos da vida. É uma jornada silenciosa para tornar-se uma pessoa melhor: melhorar a forma como se relaciona com os outros, a forma como aceita a si mesmo (até mesmo como um meio para o auto-conhecimento, pois é preciso se conhecer para poder vencer as próprias limitações); a forma como vê o estudo/trabalho; e até a busca da sua missão, daquilo que você quer deixar no mundo.

Uma forma interessante de pensar o parkour seria uma maneira de ver o mundo como um terreno de possibilidades. Não só possibilidades de movimentação, mas todas a possibilidades de superação pelas quais sua alma anseia. Nessa busca pela liberdade um traceur acaba inspirando e ajudando muitas outras pessoas. Por que de fato existe alguma coisa bela no ato de se superar, de encarar seus demonios (medos e inseguranças) internos. Não é facil pra ninguem treinar o verdadeiro parkour, e nem deve ser. Pois é superando estas dificuldades que um tracer mostra que é possível ser melhor, que os limites são ficções da sociedade, e que todos podemos fazer dos nossos sonhos realidade, e acreditarmos e nos dedicarmos a eles.

Por fim, acredito que parkour é só um nome. Acho importante sabermos suas origens: o método natural de educação física, os treinos do pentatlo do exercitos francês e toda a decicação do pai de David (Raymond Belle) para definir o principio básico de movimentação eficiente e “ser forte para ser útil”. Mas não podemos nos limitar a um molde, a movimentos pré-determinados que vemos nos videos antigos do David Belle (embora inicialmente a disciplina tenha surgido a partir disso). Devemos entender parkour como nossa forma de liberdade de crença em nós mesmo.



O que você acredita que outras pessoas pensam sobre o parkour?



Os não-praticantes de parkour reagem de diversas formas.

Tem aqueles que estão dispostos a nos ouvir (estes são em número cada vez maior, talvez pela divulgação, ainda que precária, feita pela mídia), e procuram entender os principios básicos. Estes muitas vezes acabam se mostrando maravilhados com as possibilidades do parkour.

Tem também os que, infelizmente, são a maioria… Os que ou dizem que “ isso é treinamento pra bandido!” ou “ isso é coisa de maluco! Você vão se quebrar fazendo isso!”. Estas pessoas, ao meu ver, ou não tiveram oportunidade de saber o que realmente é o parkour, ou até tiveram essa oportunidade mas escolheram continuar ignorantes em relação ao assunto.

No final das contas é um questão de personalidade. As pessoas que tem mais segurança em quem ela são e se acham livres pra ter suas próprias ideias acabam aceitando o parkour como algo importante e que merece respeito. As pessoas que não se sentem tão seguras quanto sua personalidade (acham que tem que viver segundos moldes sociais, com medo de serem chamadas de estranhas) tendem a discriminar o prática do parkour antes mesmo de ouvirem o que os praticantes têm a dizer.



No One giant leap, o Bacon falou sobre a ideia do traceur se tornar autônomo, e de que as coisas (produtos) não fazem um traceur, mas o traceur que faz o parkour, e falou sobre o mundo que se quer deixar daqui para frente.



Que tipos de roupas/produtos um traceur não usaria/compraria?




Isso depende muito. Existem traceurs e traceurs. Por mais que o principio básico do parkour seja “ser forte para ser útil”, o que incluí ser um cidadão responsável, muito pouco da filosofia do parkour é discutida durante os treinos. Dessa forma, é possivel que um praticante que vai nos treinos continue sendo ignorante em relação ao aquecimento global e a várias questões sociais. Acho que a pergunta que devemos fazer é: este praticante, que vai nos treinos com frequência e progride, mas não pensa sua vida toda como sendo um treino, e não tem consciência ambiental, ele epode ser chamado de traceur?

Sob o ponto de vista da filosofia do parkour, diria que ele não é um verdadeiro tracer.


você acredita que tenham produtos ou serviços que sejam exclusivos de um traceurs (se sim, diga quais)?!


Não acho que nada no mundo seja exclusivo dos traceurs. Nem acho que nada deveria ser exclusivo. Somos todos seres humanos com os mesmo direitos sobre a terra, mesmo que muitos ainda não tenham descoberto uma forma de se expressar e ser livre (incluindo milhares de atividades além do parkour).



Você acredita que a prática do parkour serviria como resistência ao consumo?!




Nenhum traceur deixa de ir ao super-mercado, nem de comprar roupas, assinar tv a cabo e internet banda larga. A simples prática do pakour como atividade física não reflete atitudes de responsabilidade ecologica ou anti-materialistas. Mas possibilita espaço para a reflexão (como o discurso do Bacon no One Giant Leap) e talvez diminuição do consumo de certos produtos.



Não sei se você se lembra de uma campanha da Armadillo em 2007 junto com a Tobu. Eles criaram uma coleção outono/inverno "inspirada" na prática do parkour. Você lembra ou sabe desse assunto?! O que você pensa sobre a utilização do parkour associado a uma marca de roupas?!



Eu cheguei a saber dessa campanha e até vi umas fotos… Sou meio suspeito pra falar de qualquer coisa que envolva moda, por que eu simplesmente não suporto! Mas acho que no final das contas a maioria das campanhas que usam o nome “parkour” ou “free running” só visam atingir um público maior, com um assunto que infelizmente virou moda. Infelizmente porque a forma de divulgação predominante não fala dos preceitos verdadeiros e transmite a imagem de pessoas sem juízo que um dia resolveram sair pulando prédios!

Mas recentemente estão surgindo formas de divulgação mais comprometidas com o verdadeiro parkour e marcas ainda não totalmente voltadas para o parkour, mas que são em grande parte usadas pelos praticantes, como o exemplo do tennis Kalenji e do Vibram Five Rangers (sem querer fazer propaganda!).

Sapo (May the flow be with you!)

sábado, 9 de janeiro de 2010

"Por que você pula?" (Uma breve história do Parkour)

Vivemos em um mundo de motivos. Se você compra alguma coisa é porque vai usar, porque gosta ou porque vai presentear alguém. Se você trabalha é porque tem contas pra pagar. Se você anda de um jeito é porque está se sentido de tal forma. Se tava estressado é porque no seu horóscopo (que palavra mais feia!) do dia tava escrito que não era “um bom dia para relacionamentos”. Se você sai de casa é porque vai se encontrar com alguém ou comprar alguma coisa. Estamos aprisionados às obrigações que inventamos para nós mesmos.

Como é raro ver alguém que sai de casa simplesmente por sair. Alguém que acredita nos milagres diários que acontecem pelas ruas: o sorriso de um criança; algum vovô engraçado falando besteira (e quem sabe até nisso haja ensinamentos e sabedoria); um nascer ou pôr-do-sol que foto nenhuma jamais conseguiu captar; a canto de um pássaro; o vento nas folhas; a ar puro entrando nos pulmões; o movimento incessante das ondas e das nuvens...

Como é raro alguém que acredita que faz seu próprio caminho e pra isso não precisa se justificar pra ninguém: faço o que faço porque sou quem sou, e sou quem sou porque acredito no que penso. Tão simples.

Não acredito em bruxarias, alinhamentos de planetas, filmes sobre o fim do mundo, mal olhado, macumba, promessa pra santo, que não posso fazer isso porque não dormi direto, ou porque to com dor nas costas. Não acredito que eu tenho um limite. Muito menos que tenha que apelar pra alguma coisa ou que meu destino já esteja traçado. Não acredito que tudo tem que ser feito num molde, nem que existam verdades absolutas e imutáveis entre os homens. Tão simples.

Acredito que posso me locomover como eu sentir necessário. Que posso treinar,e só... Sem “finalidades”: sem competições, sem premiações, sem reconhecimento, e muitas vezes sendo desrespeitado.

Tudo isso muito bonito, e verdadeiro... É realmente o que eu penso. Mas ainda persiste o zumbido no meu ouvido “Por que você treina?”. “Por que você pula?” O que existe dentro de você que te faz pensar o que você pensa e te leva a agir como você age...? De onde vem o seu modus operantis ?

Isto me remete às velhas perguntas: De onde vim? Quem eu sou? Para onde vou? E pode parecer ridículo, mas eu desisti há muito tempo de responde-las. Não precisou muito. Bastou perceber que não posso responder nenhuma delas.

De onde vim? A única forma de respondê-la seria tendo memórias de antes de minha vida... O que infelizmente ( ou felizmente) não é o caso. E, não, eu não acredito em vidas passadas.

Quem eu sou? Essa já “respondi” lá em cima: sou quem eu sou porque penso o que penso. Mas, como não acredito que nada entre os humanos seja perpetuo, aquilo que penso hoje pode ser o oposto do que penso amanha. Logo, não existe uma resposta para “quem eu sou”, existem milhares de respostas. Pois em uma vida frequentemente há milhares de dias e para cada dia o ser que vive é algo diferente. Ou seja, podemos ser tão infinitamente diversos que não seria possível expressar nossa complexidade (garantida pela liberdade) na forma de uma resposta...

Para onde vou? Ou pra de baixo da terra ou vai virar pó num forno que chamam de crematório. No final dá no mesmo: pó. Mas o pó é só a parte orgânica do meu ser... A parte que contém tudo aquilo que você pensava, pra onde vai? Hum... Ai se eu acreditasse em assombrações ! Parava uma delas só pra perguntar se ela não fica entediada de ficar vagando moribunda pela Terra, puxando os pés das criancinhas enquanto elas dormem...

Voltando à questão da origem do modus operantis, da forma de cada um de ser, o que no seu caso provavelmente inclui pular já que vocês está aqui. Eu gosto de pensar que a Vida não tem um sentido necessariamente. Ela têm o sentido que você dá pra ela. Mas pra dar sentido a alguma coisa é preciso estar preenchido por outras várias coisas... Matéria-prima!

Neste caso, seriam as memórias e experiências vividas que me fazem querer pular? Era porque eu via Tartatugas Ninja, Cavaleiros do Zoodíaco, Power Rangers e Homem-Aranha? Por que na minha cabeça pular era quase que um ato heróico contra o Mal? Talvez em parte sim.... Mas.... Não, o buraco é mais fundo que isso!



As filhas do mestre Splinter! (versão "maldade do ghetto, yo!)


Também tem a história dos instintos mais primitivos do homem. Hum, disso eu gostei! O cérebro primitivo. Algum resquício de informações de sobrevivência (um “manual de sobrevivência”) que pela seleção natural (Salve Darwin!) ficou armazenado no formato de cérebro que hoje usamos ( tá...nem todos nós). E falando em pular como sobrevivência nos tempos do Flinstones (por favor me avisem se eu tiver perdendo a noção nas piadas sem-graça) não podemos deixar de falar do famoso Método Natural de Educação Física desenvolvido, como reza a lenda, pelo francês George Hébert. Ele consta de atividades como pular, subir árvores, nadar, correr e arremessar. Seria um caminho para que pudéssemos condicionar nosso corpo e desenvolver o nosso potencial humano, as nossas capacidades. Uma tentativa do homem moderno de recuperar as habilidades que os primeiros homens tinham no sangue, porque precisavam delas pra sobreviver (droga! eu falando da beleza das coisas sem motivos e surge um motivo...). Melhor parar o parágrafo por aqui mesmo...





Hébert também defendia a moralização, a repetição a fim de melhorar a técnica, e a expressão livre de sentimentos de alegria como cantar, chorar, etc.


À medida que houve uma explosão de produção de tecnologia surgiu o homem moderno. Acostumado a tomar cerveja e passar horas na frente do computador. Mas ainda haviam os caras durões que curtiam ser old school (talvez por “ouvirem” a voz dos instintos primitivos dentro deles). Dentre ele surgiu um prodígio bombeiro e combatente da Guerra do Vietnã. Seu nome era Raymond Belle e segundo as notícias de jornais da época o cara era uma lenda viva. Uau! Ouvi até dizer que ele socava crânios dos mortos durante a guerra (até quebrá-los) pra ganhar mais força! Tá, admito que nisso ele exagerou... Mas não estamos aqui pra discutir a possível loucura que a guerra desencadeou nele e que causou seu suicídio anos mais tarde. Estamos aqui para agradecê-lo por ter juntado os treinamentos de pentatlo do exercito Frances com as noções de método natural e ter moldado essas idéias (que até então eram coisas soltas) pra chegar a um concenso disso tudo. Ter dito ao filho dele, David Belle, que “lá no Vienã haviam vários tipos de “percurso” ( parkour) que eu fazia, alguns para resgatar os outros, outros pra fugir de ataques etc etc etc”. Provavelmente este homem não criou intencionalmente algo... Não estabeleceu regras, normas e pontuações (mas hein?! Porque raios existem então essas porcarias de competições Bayclard?!). Ele simplesmente, condicionado pela necessidade de sobrevivência (de novo um motivo, e o mesmo: sobreviver) se moveu para salvar sua vida... E é claro, foi sensato o bastante para perceber que havia um único preceito por trás disso tudo: mover-se da forma mais eficiente possível!
É, pois é, aquela história batida de ir do ponto A pro ponto B da forma mais eficaz possível e depois conseguir voltar....



Parcours du combatant


Calma ae, antes de fazer aquela cara feia e entrar no youtube pra ver vídeos do Doyle e do Ilabaca fazendo coisas não só eficientes, mas muitas vezes bonitas e engraçadas (essa criatividade anormal e talento absurdo pra editar vídeos que fez dos britânicos os monstros mais temidos sobre a face da Terra) dê uma lida no que vou falar.




tá, vai lá... mas depois volta!


Se o Raymond Belle não tivesse vindo com essa história de eficiência pra cima do filho dele, o parkour hoje não iria existir... Por mais que os britânicos tivessem idéias e a mente forte que eles têm pra acreditar neles mesmos, se alguém antes não tivesse definido, nomeado uma forma de movimentação, eles não iam sair pulando pela rua ( mas iam continuar sendo monstros na ginástica olímpica, os malditos!). Então, porque na década de 90 um cara chamado David Belle surgiu na TV e falou da história do “parcours du combatant” e da sua essência de “être fort pour être utile” ( e alguma alma abençoada postou essa entrevista lá nos primórdios do youtube), o mundo inteiro passou a ter um exemplo pra poder ser livre... Pra libertar esse instinto primitivo que nos faz ter vontade de pular. E o mais importante: aprender a moldá-lo, assim como um reflexo adquirido!

Aprender a enfrentar esse inimigo que existe dentro de nós mesmos e que insiste em nos dizer como somos frágeis, como temos medo de altura e como podemos cair a qualquer hora. Essa é a beleza do “pular”, que na verdade inclui qualquer forma de desafio de locomoção: a nossa natureza humana. A existência, a possibilidade do erro. É disso que o Ilabaca falava quando dizia sobre “escolher não cair”. Se a possibilidade da queda não existisse também não haveria a possibilidade de acerto.





Raymond Belle





David Belle




Daniel Ilabaca (dispenso comentários...)


Hoje (com excessão dos que estão ainda estão lutando nas guerras) não temos mais essa necessidade de movimentação (de “pular”) condicionada pelo motivo da sobrevivência. Mais ainda pulamos... Por quê raios então ?! Porque queremos ser fortes e úteis? Queremos estar prontos para agir em uma situação de perigo real? Desejamos nos tornar, como disse Belle (o filho), a arma que nós mesmos guiamos?

Na maioria das vezes não (mas admito que todos estes motivos são muito nobres e os que escolhem este caminho de sacrifícios merecem meu respeito e admiração...leia-se: os cabas machos do Nordeste).




Treino do Caba Macho ( Duddu do Ybyanga/ GT)


O próprio Belle em uma entrevista mais recente (2009) intitulada “Eu salto de telhado em telhado” disse que não via motivo em passar a vida toda treinando para pode ser útil em uma situação de perigo, já que podia ser que essa situação nunca chegasse. Ele chegou a comparar este treino obcecado pela eficiência e utilidade com um velho lutador de artes marciais que passou a vida dando golpes no ar, mas nunca chegou a enfrentar o inimigo. Essa foi, pelo que entendi, a justificativa dele para o fato de que cada vez menos se interessa pelo parkour... Revoltas à parte, eu agradeço ele ter falado o que falou, e ter mostrado pro mundo o parkour dele...




Entrevista "Eu salto de telhado em telhado", com legendas feitas pelo Duddu, e com a qual colaborei!


Não poderia deixar de citar mais um trecho dessa entrevista, no qual ele diz que na vida não existem campeões: o boxeador que ganha medalhas pode sair na rua e ser esfaqueado. A vida em si é um risco constante, e o parkour por ser praticado nas ruas, em contato com a realidade, exige atenção e dedicação total! Foco.

Enfim, mais ou menos o que o Blane diz no seu post sobre os 301 monkey-precisions. Se ele errasse um mokey-precision ia ter que voltar do zero até fazer 300( o 301 ele fez em homenagem a uma velhinha que ficou falando que ele ia cair). Ele concluiu que enquanto ele permanecesse focado, a Lei das Médias (que diz que quanto mais vezes você executa um movimento suas chances de erro aumentam) não era aplicada. Aliás, grande Blane! Ele que usou a frase “Power is nothing without control” com tanta autoridade que cheguei a acreditar que fosse dele, até que o Aquaman me disse que essa frase é um jargão antigo (muito usado na engenharia) e eu perdi todo respeito que tinha por ele... Ahhhh, claro que não! Inclusive se você olhar pro titulo dessa página vai perceber uma paródia dessa frase “do Blane”. Enfim...

Na maior parte do tempo “pulamos” por que nos sentimos livres, por que nos divertimos, por que gostamos de buscar desafios... Por vários motivos, que podem parecer pouco, mas que de tão “muito” que são não consigo expressar com palavras. Talvez seja um desejo da nossa alma. Talvez seja uma forma de mostrarmos para nós mesmos que somos capazes... De sentir que existe algo de real lá fora, e que podemos agir. Que podemos existir. Nos fortalecer física e mentalmente. Ou como um dia me falou o Leon: a gente treina parkour pra se divertir. Não conheço ninguém que treina “para ser útil”.

Seja qual for o motivo, não devemos nos esquecer dos motivos iniciais (sobreviver, pegar frutas, caçar!), e quando hesitarmos e pensarmos “isso não é pra mim, eu não nasci macaco....” devemos nos lembrar dos instintos que herdamos. Sim, nós somos capazes! Sim, nós acreditamos no movimento! Sim, nós somos livres para construir nossas vidas! Então, talvez, mesmo que nosso motivo para treinar não seja se fortalecer, isso acaba acontecendo naturalmente. E chegamos às nossas metas mesmo não estando conscientes de que as buscávamos. Como diz o provérbio: às vezes somos apenas uma folha sendo levada pelo vento...





E que o flow esteja com vocês!

Sapo. Guarapari, 9/01/2010

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Hoje é o amãnha de ontem

Ouso dizer que 2009 foi o melhor ano da minha vida. E eu não vou dizer que foi por causa dos momentos que passei com vocês nem porque vocês são pessoas especiais, disso vocês já sabem. Espero que depois de formados e com o cabelo grisalho possamos continuar nos encontrando por muitos anos.
Muita gente deseja dinheiro, paz, saúde....Mas eu não desejo nada disso, por que essas coisas não existem por si só: elas são conseqüência de algo mais. Daquilo que acredtamos. Das crenças que motivam nossas ações.
Também não vou dizer que devemos correr atrás dos nossos sonhos, porque a vida não é uma longa corrida que um dia que vá terminar e só neste momento nos sentiremos realizados. Na verdade não existem dias mais importantes do que outros. Todos os dias têm a mesma importância pois são únicos e representam, cada um, a chance de começar algo novo.
O que eu desejo é que possamos acreditar em nós mesmo em todos os dias deste ano novo e dos próximos anos novos que estão por vir. Que possamos viver nossos sonhos todos os dias, sem excessão.
Não vai ser fácil, mas como diria Raul Seixas:” mas tudo foi muito fácil/ e eu me pergunto, “e dai, e agora?”.
Este desafio de viver nossos sonhos a cada dia pode parecer algo muito pesado a principio. E de fato será: vão ter dias em que não vamos ter animo nem pra levantar da cama; dias em que nada parece dar certo; dias em que vamos nos sentir sozinhos e sem amparo mesmo estando no meio de uma multidão; dias de dores de cabeça; problemas em casa; preocupações e todo tipo de estresse. Mas a consciência de que nós construímos nosso próprio caminho através de nossas escolhas servirá de consolo e dará esperança para que possamos continuar a construir no dia-a-dia nossos sonhos. Vai ser uma obra que construímos enquanto aproveitamos, enquanto vivemos ela.. E que nunca nos esqueçamos disto: só podemos viver aquilo que desejamos se assumirmos alguma atitude para que aquilo que até então só existia em nossa imaginação passe a existir para o mundo.
Sapo

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Um leão atrás de você

Ontem, dia 31 de julho de 2009 às 19:45 aproximadamente eu e Aquaman estavamos treinando nas passarelas de Botafogo. Tinha gente passando ainda e parecia tudo tranquilo. Estavamos muito inspirados pelo video que postaram na comunidade em que aparecem cenas do Bruce Lee sendo entrevistado e de um tracer ingles treinando em Londres. Pra quem conhece, a segunda passarela de Botafogo parece bem com o local do inicio desse video, e aproveitamos pra treinar cat to cats e monkey pra canos proximos a paredes. Foi bem produtivo, e não me arrependo de ter treinado lá, apesar do que aconteceu depois.
Três caras se aproximaram descendo as escadas. Quando eles ao inves de usarem a passagem subterranea andaram na diração das rampas percebi que tinha algo errado (mais tarde falando com o Aquaman ele disse que tb percebeu eles se aproximando). Eu na hora nem me lembrei da minha mochila e so pensei em subir um muro pra sair da linha dos caras, que vinham na minha direção. Um deles tinha uma faca, eles conseguiram pegar minha mochila. O Aquaman tava mais perto das mochilas e conseguiu salvar a dele. Me senti covarde por sair da linha dos caras numa direção oposta de onde o Aquaman tava. Quando de cima do muro vi um deles apontando uma coisa pro Aquaman pensei :"ja era" (parecia uma arma). Desci o muro e cheguei mais perto dos tres, que ja tavam indo embora. Pedi pra eles deixarem pelo menos alguma coisa (ou algo assim, não me lembro bem). O cara da faca ficou bolado e começaram os tres a correr pra cima da gente. O cara da faca na frente mexendo ela no ar de um lado pro outro e gritando. Corremos muito, e numa hora que tinha uma curva escorreguei e bati com a cabeça no ferro do corrimão e com o joelhos esquerdo no chao. Cai, e logo depois levantei.
Comecei a correr de novo e quando olhei pra trás vi a faca a menos de meio metro de distancia de mim. Corremos pelas nossas vidas. No final deu tudo certo. Fui no hospital e não tive nada serio, só luxações e um galo bem grande na cabeça. Fora é claro o que tava na mochila (camera e celular). Apesar de ter perdido, agora percebo que bens materiais não são nada comparados à vida. Refletimos muito sobre o que aconteceu. Poderiamos ter evitado tudo isso, pegando as mochilas, logo que eles começaram a se aproximar, e fugindo da forma mais rapida possivel? Isto sim seria o verdadeiro parkour? Deveriamos ter escalado uma parede que estava na nossa frente ao inves de termos feito a curva? Se fossemos subir ou fazer qualquer movimento, não existia a possibilidade de demorarmos mais do que se só corresemos? Enfim, pra que praticamos parkour se num hora dessas simplesmente travamos nossas mentes no sentido do parkour? No final o Aquman acabou falando que provavelmente a melhor forma de escapar era so correndo mesmo. Eu concordo. Mas a sensação de impotencia de um assalto, e depois de quase perder a vida (me lembrei de um amigo que morreu esfaqueado ano passado saindo de uma boate) são algo simplesmente indescritivel.
Venho escrever isso porque depois disso tudo a mensagem pareceu bem clara. Passei a volarizar minha vida como nunca antes (não que nao a valorizasse). Essa experiencia me deu noção da realidade de que podemos morrer de uma hora pra outra da forma mais estupida possivel, e ai tudo acaba. Tudo o que? Tudo pra gente! O resto continua. Se eles tivessem que matar iam matar, e iam continuar vivos. Então, não deixe de viver cada momento com as pessoas que você ama, sua familia e seus amigos. Não tenha medo de chegar naquela garota que você ta afim. Não tenha medo de tentar. Por que um dia, por uma besteira tudo pode acabar.
Lembre-se de todas pessoas para as quais você é de alguma forma importante. E seja forte no seu dia-a-dia. Treinei em todos os sentidos, e na hora do medo nao hesite em ser útil.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Precision Addiction

O que é o momento?
Durante o dia-a-dia vejo pessoas andando de um lado pro outro com pressa. Sem tempo. Mas, o que significa o tempo quando se é um escravo dele? Muitas vezes a ilusão de um coletivo que tem sentimentos semelhantes aos meus faz com que me acomode e passe a suportar a realidade. Não pratico a violência, mas aos meus olhos ela passa a ser algo comum. Não faço muito para mudar o meu meio porque existe um falso sentimento dessa incapacidade, condicionado pela crença de que somos todos limitados.
Mas... Quem impôs essa limitação? Quem disse que os caminhos existem e devem ser seguidos? Observando o exemplo de poucas e boas personalidade percebo que caminhos não existem, eles simplesmente esperam por existir. Cabe a mim e a você enxergar, acreditar na possível realização desses caminhos que me esperam aceita-los . Desse modo estaremos nós mesmos buscando uma forma de expressão daquilo que verdadeiramente somos. Nossas ações seriam um reflexo da essência que as motivam.
Trilhamos diversos caminhos. Pulamos de um muro para outro, ou de um muro para uma arvore. Mas na verdade estamos construindo a nossa liberdade, por que diante do desafio somos forçados a encarar aquilo que somos. A forma mais elementar e simples por trás de nossas mascaras cotidianas.... Quando estamos prestes a fazer algum movimento, e temos a consciência de que temos que acerta-lo ( não so para mantermos nossa integridade física, mas para fortalecermos nossa integridade mental) por um momento toda a ilusão de realidade à nossa volta e dentro de nós mesmos desaparece. Naquele momento não existe “o que os outros vão pensar se eu fizer isso?”, não existem preocupações simples e fúteis, não existe hesitação, dúvidas sobre o futuro, memórias do passado, e muito menos o medo. Nada mais te acompanha nesse desafio. É só você... e aquilo que você quer. É o momento em que só a minha estrutura mais simples de ser humano é posta à prova e, sentindo a simplicidade de acreditar no movimento, posso enfim construir minha liberdade. Aprendendo quem eu sou, o que quero deixar aqui e para onde quero ir. Meu nome é Lucas Oliveira Mourão e isso pra mim se chama parkour.