O parkour não existe.
Ouvindo o último podkast (004) sobre método Natural acabei pensando no significado de “ser forte para ser útil”, ou “desenvolver suas capacidades humanas”, como George Hébert dizia... Acabei chegando à conclusão de que o “parkour” ou “parcours Du combattant” non ecxiste!
O método natural pode ser posto em prática: basta se isolar da civilização por um determinado período de tempo. Fugere Urbem. Vai pro meio do mato! Um, dois, três dias, uma semana, um mês... Ou até mesmo algumas poucas horas (quatro ou cinco). O que importa é o contato com o meio natural que te impõe as barreiras e te fornece os instrumentos para sua sobrevivência. Desligar celular. De preferência deixa-lo em casa. Só levar o mínimo possível. E se desafiar. O método natural é possível. Ele ainda existe (ou pelo menos pode existir) nos dias de hoje.
Mas e o parkour? A maioria dos praticantes vive navegando pela internet (sim, eu me incluo nessa, infelizmente), vendo vídeos, tópicos de treinos em comunidades... E só então sai de casa, normalmente com um destino pré-determinado, e muitas vezes o treino se restringe a um espaço limitado: uma determinada praça, um certo parque, etc. E então, aonde está o parkour? Aonde está a eficiência de movimentação? Aonde está a motivação real para treinar?
As origens do parkour são conhecidas pela maioria dos praticantes (felizmente). Vietnã. Guerra do Vietnã. Necessidade de ser rápido para resgatar os companheiros, para salvar vidas. Exposição continua ao risco, em prol do beneficio à vida do outro. Um risco de vida constante, mas que valeu à pena para milhares de soldados, pois assim eles ao menos se sentiram vivos. É o contato com a realidade que abre seus olhos, que te empurra pro abismo da fragilidade da sua própria existência e te obriga a se fortalecer (ou te deixa louco) pra sobreviver. Para poder continuar salvando vidas. Ser forte para ser útil. O parkour existiu no Vietnã. O parcours du combattant foi um evento, um fato histórico (embora seja negligenciado nas aulas de história das escolas).
Ai a historia desse fenômeno que existiu foi contada pra um moleque cheio de fantasias de Homem-Aranha. Ele se chama, como todos sabem (mais do que sabem sobre o Vietnã) David Belle. Fascinado pelo que seu pai contava, David começou a treinar com sua “tchurma”, formando vários grupos com nomes diferentes. Um deles, o Speed-Air-Man (só depois de ouvir um podkast mais antigo percebi que quando os franceses falam Speed-air-man com o soltaque deles soa como “spider-man”). Enfim, no começo era David, Foucan, Thomas, Kazuma. William Belle e vários outros que hoje integram a Parkour Generations, Majestic Force etc,etc,etc. E é engraçado pensar que no inicio do parkour brasileiros gastamos incontáveis horas debatendo se giro é ou não é parkour... Mais engraçado ainda é lembrar que o Belle, declarou em uma das suas entrevistas mais recentes (aquela em que ele tá de ovo virado falando que “parkour já deu o que tinha que dar”) que ele nunca gravou e divulgou os vídeos dele, e que ele nunca teve intenção de virar ator (“simplesmente aconteceu”). Pois bem, o youtube está repleto de vídeos gravados do Belle e da turma dele treinando, alguns dos quais, de tantos giros que tem, podem até ser chamados de “modinha”.
E você se pergunta: isso que o Belle fazia, em parte pra ganhar o respeito do pai, a quem ele se refere como uma pessoa que foi autoritária e rígida, era parcours de combattant? Hum, eu acho que não... Tanto que passou a se chamar “parkour”. Mas a verdade é que a essência que motivava o “parcours Du combattant” (o “parkour-original”) já tinha se perdido há muito tempo. O parkour em meio ao tiroteio e desespero foi enterrado com o final da Guerra do Vietnã. Isso que eles passaram a treinar não era parkour, eram simulações de movimentos que pertenceram ao parkour. E foi baseado nesse “pseudo-parkour” que pessoas de todos os cantos do mundo começaram a “treinar parkour”. Depois de um tempo surgiram outros estilos e influências muito fortes, principalmente vindos da Inglaterra, Bélgica (Speeders) e Rússia( até hoje tem gente que acha o “Dvinsclan foda!” mas não conhece o Oleg, fazer o que...).
Essa emergência brutal do parkour patrocinada pela mídia abriu campo pra interação, e chamou mais atenção para, os tricksters, os b-boys, os ginastas. Aqui no Rio até há pouco tempo a UERJ era um ponto de encontro de ginastas, circenses, b-boys, giradores e “parkourzeiros”. Mas, veja bem, não estou dizendo que o parkour não existe porque se miscigenou com outras “artes do movimento”. Estou dizendo que ele não existe pois todo o conceito no qual se baseia não existe mais. Vivemos uma outra realidade, muito mais cômoda. Isso é inegável!
Mas, “eu quero treinar parkour!”... Vai ficar querendo “champs”. Você pode ate treinar os movimentos semelhantes aos do parkour e “correr loucamente no flow-mais-gringo-da-face-da-terra”:
Mas nada disso vai ser o verdadeiro parkour, pois “ser forte pra ser útil” não vai ser uma verdade literal (no máximo algo filosófico, subjetivo ou com implicações indiretas). Como treinar o parkour então? Se aliste e vá à guerra (se bem que com a quantidade de tecnologia usada no Iraque vai rolar pouco parcours Du combattant lá).
E Que o flow esteja com você!
Sapo
Rio, 21./04/2010
Satisfação
Há 15 anos
