Como é raro ver alguém que sai de casa simplesmente por sair. Alguém que acredita nos milagres diários que acontecem pelas ruas: o sorriso de um criança; algum vovô engraçado falando besteira (e quem sabe até nisso haja ensinamentos e sabedoria); um nascer ou pôr-do-sol que foto nenhuma jamais conseguiu captar; a canto de um pássaro; o vento nas folhas; a ar puro entrando nos pulmões; o movimento incessante das ondas e das nuvens...
Como é raro alguém que acredita que faz seu próprio caminho e pra isso não precisa se justificar pra ninguém: faço o que faço porque sou quem sou, e sou quem sou porque acredito no que penso. Tão simples.
Não acredito em bruxarias, alinhamentos de planetas, filmes sobre o fim do mundo, mal olhado, macumba, promessa pra santo, que não posso fazer isso porque não dormi direto, ou porque to com dor nas costas. Não acredito que eu tenho um limite. Muito menos que tenha que apelar pra alguma coisa ou que meu destino já esteja traçado. Não acredito que tudo tem que ser feito num molde, nem que existam verdades absolutas e imutáveis entre os homens. Tão simples.
Acredito que posso me locomover como eu sentir necessário. Que posso treinar,e só... Sem “finalidades”: sem competições, sem premiações, sem reconhecimento, e muitas vezes sendo desrespeitado.
Tudo isso muito bonito, e verdadeiro... É realmente o que eu penso. Mas ainda persiste o zumbido no meu ouvido “Por que você treina?”. “Por que você pula?” O que existe dentro de você que te faz pensar o que você pensa e te leva a agir como você age...? De onde vem o seu modus operantis ?
Isto me remete às velhas perguntas: De onde vim? Quem eu sou? Para onde vou? E pode parecer ridículo, mas eu desisti há muito tempo de responde-las. Não precisou muito. Bastou perceber que não posso responder nenhuma delas.
De onde vim? A única forma de respondê-la seria tendo memórias de antes de minha vida... O que infelizmente ( ou felizmente) não é o caso. E, não, eu não acredito em vidas passadas.
Quem eu sou? Essa já “respondi” lá em cima: sou quem eu sou porque penso o que penso. Mas, como não acredito que nada entre os humanos seja perpetuo, aquilo que penso hoje pode ser o oposto do que penso amanha. Logo, não existe uma resposta para “quem eu sou”, existem milhares de respostas. Pois em uma vida frequentemente há milhares de dias e para cada dia o ser que vive é algo diferente. Ou seja, podemos ser tão infinitamente diversos que não seria possível expressar nossa complexidade (garantida pela liberdade) na forma de uma resposta...
Para onde vou? Ou pra de baixo da terra ou vai virar pó num forno que chamam de crematório. No final dá no mesmo: pó. Mas o pó é só a parte orgânica do meu ser... A parte que contém tudo aquilo que você pensava, pra onde vai? Hum... Ai se eu acreditasse em assombrações ! Parava uma delas só pra perguntar se ela não fica entediada de ficar vagando moribunda pela Terra, puxando os pés das criancinhas enquanto elas dormem...
Voltando à questão da origem do modus operantis, da forma de cada um de ser, o que no seu caso provavelmente inclui pular já que vocês está aqui. Eu gosto de pensar que a Vida não tem um sentido necessariamente. Ela têm o sentido que você dá pra ela. Mas pra dar sentido a alguma coisa é preciso estar preenchido por outras várias coisas... Matéria-prima!
Neste caso, seriam as memórias e experiências vividas que me fazem querer pular? Era porque eu via Tartatugas Ninja, Cavaleiros do Zoodíaco, Power Rangers e Homem-Aranha? Por que na minha cabeça pular era quase que um ato heróico contra o Mal? Talvez em parte sim.... Mas.... Não, o buraco é mais fundo que isso!
As filhas do mestre Splinter! (versão "maldade do ghetto, yo!)
Também tem a história dos instintos mais primitivos do homem. Hum, disso eu gostei! O cérebro primitivo. Algum resquício de informações de sobrevivência (um “manual de sobrevivência”) que pela seleção natural (Salve Darwin!) ficou armazenado no formato de cérebro que hoje usamos ( tá...nem todos nós). E falando em pular como sobrevivência nos tempos do Flinstones (por favor me avisem se eu tiver perdendo a noção nas piadas sem-graça) não podemos deixar de falar do famoso Método Natural de Educação Física desenvolvido, como reza a lenda, pelo francês George Hébert. Ele consta de atividades como pular, subir árvores, nadar, correr e arremessar. Seria um caminho para que pudéssemos condicionar nosso corpo e desenvolver o nosso potencial humano, as nossas capacidades. Uma tentativa do homem moderno de recuperar as habilidades que os primeiros homens tinham no sangue, porque precisavam delas pra sobreviver (droga! eu falando da beleza das coisas sem motivos e surge um motivo...). Melhor parar o parágrafo por aqui mesmo...

Hébert também defendia a moralização, a repetição a fim de melhorar a técnica, e a expressão livre de sentimentos de alegria como cantar, chorar, etc.
À medida que houve uma explosão de produção de tecnologia surgiu o homem moderno. Acostumado a tomar cerveja e passar horas na frente do computador. Mas ainda haviam os caras durões que curtiam ser old school (talvez por “ouvirem” a voz dos instintos primitivos dentro deles). Dentre ele surgiu um prodígio bombeiro e combatente da Guerra do Vietnã. Seu nome era Raymond Belle e segundo as notícias de jornais da época o cara era uma lenda viva. Uau! Ouvi até dizer que ele socava crânios dos mortos durante a guerra (até quebrá-los) pra ganhar mais força! Tá, admito que nisso ele exagerou... Mas não estamos aqui pra discutir a possível loucura que a guerra desencadeou nele e que causou seu suicídio anos mais tarde. Estamos aqui para agradecê-lo por ter juntado os treinamentos de pentatlo do exercito Frances com as noções de método natural e ter moldado essas idéias (que até então eram coisas soltas) pra chegar a um concenso disso tudo. Ter dito ao filho dele, David Belle, que “lá no Vienã haviam vários tipos de “percurso” ( parkour) que eu fazia, alguns para resgatar os outros, outros pra fugir de ataques etc etc etc”. Provavelmente este homem não criou intencionalmente algo... Não estabeleceu regras, normas e pontuações (mas hein?! Porque raios existem então essas porcarias de competições Bayclard?!). Ele simplesmente, condicionado pela necessidade de sobrevivência (de novo um motivo, e o mesmo: sobreviver) se moveu para salvar sua vida... E é claro, foi sensato o bastante para perceber que havia um único preceito por trás disso tudo: mover-se da forma mais eficiente possível!
É, pois é, aquela história batida de ir do ponto A pro ponto B da forma mais eficaz possível e depois conseguir voltar....

Parcours du combatant
Calma ae, antes de fazer aquela cara feia e entrar no youtube pra ver vídeos do Doyle e do Ilabaca fazendo coisas não só eficientes, mas muitas vezes bonitas e engraçadas (essa criatividade anormal e talento absurdo pra editar vídeos que fez dos britânicos os monstros mais temidos sobre a face da Terra) dê uma lida no que vou falar.
tá, vai lá... mas depois volta!
Se o Raymond Belle não tivesse vindo com essa história de eficiência pra cima do filho dele, o parkour hoje não iria existir... Por mais que os britânicos tivessem idéias e a mente forte que eles têm pra acreditar neles mesmos, se alguém antes não tivesse definido, nomeado uma forma de movimentação, eles não iam sair pulando pela rua ( mas iam continuar sendo monstros na ginástica olímpica, os malditos!). Então, porque na década de 90 um cara chamado David Belle surgiu na TV e falou da história do “parcours du combatant” e da sua essência de “être fort pour être utile” ( e alguma alma abençoada postou essa entrevista lá nos primórdios do youtube), o mundo inteiro passou a ter um exemplo pra poder ser livre... Pra libertar esse instinto primitivo que nos faz ter vontade de pular. E o mais importante: aprender a moldá-lo, assim como um reflexo adquirido!
Aprender a enfrentar esse inimigo que existe dentro de nós mesmos e que insiste em nos dizer como somos frágeis, como temos medo de altura e como podemos cair a qualquer hora. Essa é a beleza do “pular”, que na verdade inclui qualquer forma de desafio de locomoção: a nossa natureza humana. A existência, a possibilidade do erro. É disso que o Ilabaca falava quando dizia sobre “escolher não cair”. Se a possibilidade da queda não existisse também não haveria a possibilidade de acerto.

Raymond Belle
David Belle
Daniel Ilabaca (dispenso comentários...)
Hoje (com excessão dos que estão ainda estão lutando nas guerras) não temos mais essa necessidade de movimentação (de “pular”) condicionada pelo motivo da sobrevivência. Mais ainda pulamos... Por quê raios então ?! Porque queremos ser fortes e úteis? Queremos estar prontos para agir em uma situação de perigo real? Desejamos nos tornar, como disse Belle (o filho), a arma que nós mesmos guiamos?
Na maioria das vezes não (mas admito que todos estes motivos são muito nobres e os que escolhem este caminho de sacrifícios merecem meu respeito e admiração...leia-se: os cabas machos do Nordeste).
Treino do Caba Macho ( Duddu do Ybyanga/ GT)
O próprio Belle em uma entrevista mais recente (2009) intitulada “Eu salto de telhado em telhado” disse que não via motivo em passar a vida toda treinando para pode ser útil em uma situação de perigo, já que podia ser que essa situação nunca chegasse. Ele chegou a comparar este treino obcecado pela eficiência e utilidade com um velho lutador de artes marciais que passou a vida dando golpes no ar, mas nunca chegou a enfrentar o inimigo. Essa foi, pelo que entendi, a justificativa dele para o fato de que cada vez menos se interessa pelo parkour... Revoltas à parte, eu agradeço ele ter falado o que falou, e ter mostrado pro mundo o parkour dele...
Entrevista "Eu salto de telhado em telhado", com legendas feitas pelo Duddu, e com a qual colaborei!
Não poderia deixar de citar mais um trecho dessa entrevista, no qual ele diz que na vida não existem campeões: o boxeador que ganha medalhas pode sair na rua e ser esfaqueado. A vida em si é um risco constante, e o parkour por ser praticado nas ruas, em contato com a realidade, exige atenção e dedicação total! Foco.
Enfim, mais ou menos o que o Blane diz no seu post sobre os 301 monkey-precisions. Se ele errasse um mokey-precision ia ter que voltar do zero até fazer 300( o 301 ele fez em homenagem a uma velhinha que ficou falando que ele ia cair). Ele concluiu que enquanto ele permanecesse focado, a Lei das Médias (que diz que quanto mais vezes você executa um movimento suas chances de erro aumentam) não era aplicada. Aliás, grande Blane! Ele que usou a frase “Power is nothing without control” com tanta autoridade que cheguei a acreditar que fosse dele, até que o Aquaman me disse que essa frase é um jargão antigo (muito usado na engenharia) e eu perdi todo respeito que tinha por ele... Ahhhh, claro que não! Inclusive se você olhar pro titulo dessa página vai perceber uma paródia dessa frase “do Blane”. Enfim...
Na maior parte do tempo “pulamos” por que nos sentimos livres, por que nos divertimos, por que gostamos de buscar desafios... Por vários motivos, que podem parecer pouco, mas que de tão “muito” que são não consigo expressar com palavras. Talvez seja um desejo da nossa alma. Talvez seja uma forma de mostrarmos para nós mesmos que somos capazes... De sentir que existe algo de real lá fora, e que podemos agir. Que podemos existir. Nos fortalecer física e mentalmente. Ou como um dia me falou o Leon: a gente treina parkour pra se divertir. Não conheço ninguém que treina “para ser útil”.
Seja qual for o motivo, não devemos nos esquecer dos motivos iniciais (sobreviver, pegar frutas, caçar!), e quando hesitarmos e pensarmos “isso não é pra mim, eu não nasci macaco....” devemos nos lembrar dos instintos que herdamos. Sim, nós somos capazes! Sim, nós acreditamos no movimento! Sim, nós somos livres para construir nossas vidas! Então, talvez, mesmo que nosso motivo para treinar não seja se fortalecer, isso acaba acontecendo naturalmente. E chegamos às nossas metas mesmo não estando conscientes de que as buscávamos. Como diz o provérbio: às vezes somos apenas uma folha sendo levada pelo vento...
E que o flow esteja com vocês!
Sapo. Guarapari, 9/01/2010
