quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

A impermanência das coisas ( no caso Pq dos Patins)...

Já faz mais de um mês. Era uma linda manha de sábado. Eu tinha um monte de coisas pra estudar, mas resolvi dar aquela protelada básica de "dar uma folheada no jornal pra ver o que tem de novo". E aí vem a parte trágica da história. Acho que fiquei uns 20 munitos em choque, sem acreditar: TODOS OS BRINQUEDOS DO PQ DOS PATINS VAO SER DEMOLIDOS. NO ESPAÇO VÃO SER CONSTRUÍDAS DUAS CICLOVIAS E VÃO SER COLOCADOS BRINQUEDOS NOVOS.

Liguei pro JJ desesperado na mesma hora auhehauehauehue.

Link da matéria:
http://oglobo.globo.com/rio/mat/2010/11/19/area-de-lazer-da-lagoa-entrara-em-reforma-ate-fim-do-ano-923061485.asp


Sabe aquela velha história "Se não tá com segurança melhor fazer depois! Volta aqui outro dia e tenta de novo!" ?
E se não tiver um "tenta de novo"?
Às vezes somos cercados por tantas facilidades que não nos damos conta de que o único momento que realmente existe é o agora! E no último ano (quase) todos os lugares de treino da Zona Sul com coisas que eu ainda queria fazer foram demolidos ou entrarem em obras! É nessa hora que bate aquele arrependimento... O famoso sentimento de culpa dos covardes de "devia ter tentado isso antes..."
Faço aqui a lista dos locais demolidos/em obras:

1) Passarela do Obelisco (no começo de Ipanema)-
Era pra ser uma passarela mas acho que a estrutura não ia aguentar o pessoal circulando ou os moradores da vizinhança vetaram. Acabou virando uma "passarela-fantasma" com uma parede de uns 3 metros e pouco na parte mais baixa. Fui deixando pra depois e acabou que nunca subi lá.

2) Muro do lado da Estação de Botafogo (indo na direção do Mourisco)-
Também com uns 3 metros e uns trocados de altura... Esse pelo menos eu tentei e quase consegui subir...

3) Pracinha na frente da estação de Botafogo-
Da noite pro dia surgiu um canteiro de obras cercando a praça toda.

É uma lista curta e espero que ela continue assim.

Mas a Lagoa?! Nossa... Acho que se tudo aquilo for demolido eu vou chorar por uma semana! Lá sim, tem coisas que eu ainda não fiz. MUITAS! E coisas que eu ainda nem imaginei tentar...
Lembro do meu primeiro dia de treino lá. Novembro de 2006. Eu tava andando de patins e um cara que eu conhecia virou pra mim e falou: " Olha lá o pessoal do parkour. Você não vive falando que quer fazer isso ai?" Eram cinco ou seis pulando as mesinhas de ping pong. Só. Comecei a me tacar e logo de cara já ganhei uns arranhões. Ah, e como todo bom noob não parava de perguntar como fazia pra aprender mortal. A resposta: "Posto 8. Ipanema. 2h" Esse resposta que me levou a ir no treino da praia, e uma semana depois já tava fazendo aula na Akxe da Barra com o Alexandre. Ah... Bons tempos!
Depois veio o PKJB, e eu vi o tempo passar enquanto a maioria parava... Lembro do primeiro dia de treino do Leon, que chegou quando eu tava repetindo precisões na minha época de "tarado pelos Castelinhos". Lembro do dia em que o Alex Sahy e Remi Bakkar ficaram olhando o Zico e o Bacon fazendo uma sequencia de running-precision com mortal pra frente. Lembro do 1o Encontro Carioca de Parkour. Lembro do primeiro treino do Aquaman (se tacando nas precisões hauehauehuee). Lembro do dia em que um mulequinho de uns 5 anos, descalço, tacou uma precisão de cima dos castelinhos, e saiu como se nada tivesse acontecido... Enfim.

Felizmente conseguimos realizar o 6o EBPK sem maiores problemas. Conseguimos usar o espaço do Pq dos Patins do dia extra-oficial. Nos dois dias do encontro foi passada a lista de abaixo-assinado contra a demolição deste espaço histórico do parkour nacional. Conseguimos pouco mais de 130 assinaturas...

Agora graças à cooperação do pessoal do Portal Parkour temos o abaixo assinado na internet!
Ele já está com mais de 200 assinaturas, mas tenho certeza que muita gente ainda não assinou. Ajude a divulgar:

http://www.parkour.com.br/abaixo-assinado/demolicao-da-lagoa/

Que o flow esteja com você!
Att Sapo... HAUUUUUUU!! HAUUUUUUUU!!!!! HAUUUUUUUUUU!!

domingo, 31 de outubro de 2010

Belos Horizontes ou dores musculares?

É engraçado como de uma hora pra outra tudo muda.

Acho que BH é sempre assim. Tem esse efeito de “tapa na cara da sociedade”. Da última vez que fui lá pro 4o EBPK minha relação com o parkour se renovou e me motivou a buscar novos caminhos, investindo mais na parte criativa da minha movimentação, construindo minha identidade... Mas dessa vez foi mais pra uma surra com taco de beisebol.
Saí do Rio de Janeiro às 22:45 h do dia 17/07/2010 num ônibus da UTIL com a galera da Omnis em peso (e infelizmente alguns desfalques) e tracers de São Gonçalo. Nosso destino era Belo Horizonte. Chegava prevista pra 5:30 horas da manha, com uma parada prevista em Juiz de Fora.

Meu corpo estava ansioso. Minha mente estava vazia. Eu fiz o maior esforço possível para mante-la dessa forma: livre de expectativas. Expectativas são perigosas, elas te limitam, te condicionam.

Quando chegamos em Juiz de Fora acabei acordando. Alguém que estava no ônibus falou algo do tipo “Po, só tem mato aqui, nem dá pra treinar!”. Respondi na hora que tal afirmativa estava errada, PKJF= brabeza extrema. É claro, não pude deixar de me lembrar dos bons momentos que passei no Carnaval deste ano treinando nesta cidade com Cristian, Luciano, Ícaro, “Homem-Bruninho”, Aquaman. É bem verdade que eu não escrevo nesse blog faz um tempo. Um dos motivos é a falta de tempo, o outro é o fato de que tava esperando sair um vídeo da viagem minha e do Aquaman pra JF.
Enfim, na minha mente vieram os momentos inesquecíveis que passei nesta cidade:

Os treinos diurnos e noturnos nos trilhos do trem (um deles vestido de Chapolin);

Os treinos na Universidade Federal de Juiz de Fora, um lugar lindo que lembra muito Lysses (de verdade!), tanto que existem umas rampas que o pessoal de lá chama de Mini-Lysses;

O treino de giros no gramado em frente ao Shopping de JF;

O açaí com morango;

O treino na pista de skate abandonada (depois de uma longa caminhada em baixo de sol à pino);

A festa de despedida do Miguel, na qual: tracers, não-tracers e desconhecidos pararam suas atividades pra assistir Out of Time; fiz minha primeira parada de mão subindo; Cristian mandou mortal no meio da rodinha; Bruninho mandou flair; um cara muito doido saiu correndo de cueca e pulou na piscina; todo mundo girou na grama e na piscina; o Ícaro botou a música do Homem-Macaco pra tocar; gastamos horas planejando um filme de terror-trash que envolveria parkour e uma moeda amaldiçoada e no qual o protagonista seria atropelado por um trem na última cena (mas nunca gravamos nada);

O dia em que assistimos dois filmes ruins no cinema ( O lobisomen e Percy não sei das quantas) e na volta do Shopping, quando passávamos na frente de uma favela às 1:30 h da madrugada dois pivetes começaram a tacar pedras na gente, e enquanto corríamos o Ícaro começou a gritar “ LÁ VEM O HOMEM-MACACO CORRENDO ATRÁS DE MIM!”

O Aquaman ownando no arco e flecha;

O rodízio de Pizza, e muitos outros momentos...




Alguns deles estão no último vídeo com meus movimentos de parkour, junto com cenas do Rio em outubro e janeiro, e cenas de dois dias de treino em Vitória* (no final de Janeiro com o pessoal da Famille Flux). Já fazem 15 meses desde meu último vídeo (“May the flow be With You”). O motivo desse intervalo foi principalmente a falta de tempo por causa da faculdade.

O conceito do vídeo surgiu em outubro do ano passado ( há pouco mais de um ano) se não me engano logo depois do One Giant Leap. Era uma idéia bem simples: aproveitar a cena que ao meu ver consegue resumir o que é Matrix ( a cena do metrô em que Neo resolve enfrentar o agente Smith). Foi ai que percebi que existe um paralelo absurdo entre a frase do Morpheus nesta cena “ He’s beginning to believe” ( “Ele está começando a acreditar”) e o que é o parkour (acreditar). Daí veio a idéia do titulo : Começando a acreditar (Beginning to Believe)*. Entre essa idéia e o começo da edição se passaram quase 4 meses. A edição começou um pouco antes da viagem pra Juiz de Fora em fevereiro... e só terminou nessa sexta-feira passada (dia 29 de outubro)!

[Vídeo Começando a acreditar (Beginning to believe)] *

http://www.youtube.com/watch?v=4OH3BbqRLm0

Neste meio tempo muitas coisas boas aconteceram, incluindo o 3o Encontro Carioca de Parkour, e o 1o dia do 2o Encontro Niteroiense de Parkour que aconteceu ontem! (faltei hoje porque tava morto e só acordei meio-dia... 500 flexões pra mim!).

Enfim...

Voltando ao contexto da viagem pro 4o Encontro Mineiro de Parkour (tema central do post)... Foi quando acordei em JF, e me lembrei de todos os bons momentos que passei lá, que toda essa história de manter a mente vazia foi pro espaço. Meus pensamentos foram tomados por todas as imagens dos lugares de treino na UFMG (onde seria realizado o evento), mal podia esperar. Mas apesar de toda essa euforia silenciosa eu dormi até chegarmos em BH. Dormi não, apaguei.

Enfim, 5:15 da manha. Estávamos no terminal de ônibus de BH. Mais de 15 cariocas com malas, perdidos, totalmente perdidos (embora só fossemos nos dar conta disso mais tarde). Depois de uma breve discussão sobre o melhor meio de transporte até o Chalé Mineiro (albergue onde havíamos feito a reserva) decidimos pegar o Metro. Saltamos na estação mais próxima ao bairro de Sta Efigênia e começamos a andar, andar, andar. Enfim estávamos lá. Nos hospedamos, fomos comer na padaria lá perto. Pegamos um ônibus que passava pela UFMG.

Saltamos na entrada principal da UFMG. Perguntei ao trocador se o campus de educação física ficava próximo e recebi um “sim” de resposta. Que beleza! Depois de uns 40 minutos caminhando ( e passando por lugares bonitos e locais que reconhecemos de vídeos) enfim chegamos.

Fazer as inscrições, reconhecimento do local, reencontrar bons e velhos amigos de tudo que é canto do Brasil, treino de leve: Leo Laranja subiu um muro grotescamente alto de cara; Arly fazendo suas monstruosidades; JJ , Arthur e Passarinho mandando uma sequência de monkey-precisão-precisão-cat numa árvore; Tica mandando um monkey-precisão brabo (depois de umas tentativas perdi o medo e consegui fazer também); Pipolo passando só no alongamento por uma coluna (descobri que meu alongamento é pior do que pensava e só depois de várias tentativas consegui).

Fomos todos chamados pela organização do evento: decepção, só íamos ver os gringos depois de um intervalo pra almoço.
Supermercado Carrefour, em frente à universidade. Almoço “firmeza”: arroz, feijão, carne, batata e suco de laranja. Eu ia me arrepender de ter comido tanto... Pagar? Só depois de almoçar (isso que é confiança). Na volta um cat leap de leve na entrada do Carrefour. Arly também mandou (climbando na velocidade-da-luz pra variar) e JJ mandou a precisão voltando.

Uma hora da tarde. Todo mundo se encontrou no gramado. Após um breve discurso do Rachacuca apresentando toda a galera da CTT, Brasília e da PKMAX que tinha participado do A.D.A.P.T. (Art Du Deplacement and Parkour Teaching) enfim ouvimos algumas palavras do Blane sobre como ia ser nosso dia. Stephane Vigroux e Dan também estavam lá. Só reconheci o Vigroux quando foi feita menção ao nome dele.

Fizemos um aquecimento, orientado pelo Blane, com umas posições de flexão um pouco diferentes e com foco na respiração.

Nos dividimos em grupos. A idéia foi alternar entre “estações” seguindo o treino passado pelo pessoal que tinha feito o ADAPT.
Logo na primeira estação já me empolguei e quis subir um muro rápido demais( puxei o pé rápido e já fui soltando as mãos) Resultado: a ponta do pé esquerdo travou na parede e eu cai, acertando meu cotovelo esquerdo na quina. Logo depois rolou um exercício de passagem por um murinho de diferentes formas e sem parar pra descansar. Resultado: fiquei com falta de ar e tive que sentar pra me recuperar. Conclusão: “sou sedentário...”

Na segunda estação tivemos que trabalhar no “modo cooperativo” pra chegar até o final de um percurso com mesinhas redondas e bancos. Depois fizemos um exercício de ficar de olhos fechados e sermos empurrados em várias direções, pra melhorar o rolamento.

Na terceira estação tínhamos que climbar um muro e passar por um murinhos e duas grades verdes. Várias vezes. No começo foi tranqüilo. Depois de um tempo que comecei a sentir o cansaço. Quem tava orientando essa estação era o Dan, e foi justamente isso que ele falou: “ A questão não é o nível de dificuldade, mas sim a sua resistência.”

A quarta estação era uma pracinha com uns bancos em formato de “U”. Lá fizemos uns percursos com foco nas precisões, e orientação do Blane que até passou um desafio de precisão pro Raxa! Hueaheuaheuaheue

A quinta, e pelo que eu lembro ultima estação era um percurso entre uns bancos e com um cat leap pro parapeito de uma escada. Quem tava observando e ajudando com dicas era o Vigroux.

Pelo que eu me lembro foram essas as estações. Mal tivemos tempo pra respirar e já tínhamos que voltar pro gramado onde iniciamos com o alongamento. E, é claro, nada melhor do que um treininho de físico puxado pelo Blane pra concluir a tarde. Fizemos duplas, e o exercício que eu lembro melhor era tentarmos subir na posição de flexão enquanto nossa dupla fazia força na direção contrária. A dupla do Blane era o Dan, e como ele inicialmente não conseguiu impedir o Blane de subir uma negada acabou se amontoando pra empurrar o Blane pro chão. Eita bicho brabo!

Logo depois teve um desafio pra ver quem ia ficar na roda até o final. As regras eram simples, quem saísse tinha que ajudar a tirar quem ainda não tinha saído. O tipo de brincadeira que te deixa com uns arranhões (por que nego sem noção saí puxando de qualquer jeito). No final ficaram dois vencedores, que foram premiados com camisas da pk generations.

Por último, tivemos um exercício de respiração com o Vigroux que era basicamente ficar em silêncio, e não prestar atenção em mais nada além da sua própria respiração.







[ Vídeos da Omnis do pessoal do Rio no EMPK]

Parte ½:

http://vimeo.com/15415638

Parte 2/2:

http://vimeo.com/15443280

Já eram umas seis da tarde. Momento de tirar fotos e tal. Comentei com o Vigroux sobre a fala dele no documentário (Le singe est de retour)* dizendo que ele achava uma vergonha os primeiros praticantes terem brigado e se dispersado por motivos individuais. Ele disse que atualmente se sente fazendo algo para que isso seja diferente, justamente através de aulas, encontros da pkgen e viagens por diferentes países.

[ Documentário “le singe est de retour”]*

http://www.youtube.com/watch?v=q4mZf80fOhQ

Também perguntei ao Blane sobre o motivo dele não postar mais vídeos (mesmo tendo deixado claro que esse provavelmente era o tipo de pergunta chata que todo mundo devia fazer toda hora). A resposta foi que ele considerava que estava evoluindo ainda e que se ele fizesse um vídeo agora, no momento em que ele fosse publicado, já estaria ultrapassado. Então ele iria esperar a evolução se estabilizar pra gravar alguma coisa.






Vigroux





Blane


Depois do momento de descontração veio a bomba. Hellnight. A noite do inferno. O criador do treino, Chris “Blane” Rowat fez questão de enfatizar o famoso “fica quem quer!”. Explicou que era um treino físico pesado e que se você estivesse com algum machucado ou com alguma condição que te impedisse de treinar era melhor ir embora pra descansar. Ninguém que não fosse participar poderia ficar pra assistir ou filmar (senão poderíamos denunciá-los por maus tratos, claro!... brincadeira hauehauehuae) . E, o mais importante “WE START TOGETHER, WE FINISH TOGETHER!”.

Se eu dissesse que foi um treino duro eu estaria mentindo. Foi o inferno na Terra! Menos pro Raxa que tava com cara de quem tá passeando ahuehauehaueuhue.

Começou com o desafio de andar de quadrupedal, sem direito a pausa pra descansar, num percurso de ida e volta. Tínhamos que completar três vezes. Indo de frente e voltando de costas....Falando assim até parece fácil. Deve ter durado uns 40 minutos... Mas pareceu uma eternidade! O problema era que tava um breu. Nem dava pra ver se já estávamos chegando no final do caminho ou não. E depois de um tempo começou uma cãibra em todos os músculos. Pra tudo que é lado que você olhava tinha gente caída de dor, gente continuando e tentando motivar os outros, e o Raxa falando “ Não vamo dar mole pra esses gringos não! Se eles conseguem a gente também consegue!”. “HAUUUUUUUUUU!!!!”. Quem terminasse tinha que esperar os outros na posição de flexão. Teve gente indo embora e gente passando mal.

Logo depois fomos correndo até os corredores. O exercício era dar uma volta num bloco carregando sua dupla. O Bryan começou me carregando e, lá pelo meio do caminho eu vejo um cara passar correndo por mim com o Blane nos braços: “ Po cara, to muito cansado, mas tipo assim, é o Blane véi!”. Eu já ri sozinho muitas vezes me lembrando disso.... Hhauehauehuaehuaheue. Enfim, no minha vez de levar o Bryan, lá pelo quinto ou sexto passo senti uma pinçada nas costas. Parei. Depois teve carrinho de mão e agachamento (também dando a volta no bloco da educação física onde fica o auditório). Entre uma espera e outra não podíamos tocar os pés no chão. Era flexão ou ficar sentado com as pernas cruzadas no ar.

Passamos pro mesmo local onde tinha sido a primeira estação do meu grupo: um muro, um gramado logo em cima e uma mureta ( é de onde eu saio e pra onde eu volto nesse videozinho que filmamos de zueira no dia seguinte- domingo- na hora do almoço: http://www.youtube.com/watch?v=GbYvkZxwFH0 ). Dessa vez tínhamos que andar pela parte de dentro da mureta sem tocar os pés no chão e depois voltar de quadrupedal de costas. Em seguida tínhamos que ficar na posição de climb, passar até o ponto mais longe que conseguíssemos do muro e climbar. Quem caísse pagava 100 flexões. Ninguém caiu. Se não me engano tínhamos que repetir tudo 3 vezes.

Em seguida fomos divididos em grupo. Eram mais ou menos 7 grupos. Enquanto um grupo descia pra fazer 5 ou 10 climbs (advinha quantos eu escolhi fazer...) os membros do demais grupos tinham que ficar em posição de flexão. Foram 3 ou 4 vezes. Terminamos e voltamos correndo até o ponto de início.

Foi ai que deu “a treta” o Blane falou que tudo isso tinha sido só uma volta. E que o percurso completo era 4 voltas. Hesitei por uns 2 segundos no máximo e fui embora. Sofrimento tem um limite. Achei que não ia me trazer mais nenhum beneficio.
Pois eu já estava há uns 15 minutos sentado, numa parte mais isolada, conversando com o pessoal que tinha saído também quando todo mundo que tinha ficado e o Blane passam... Era tudo “treta”. Eu fiquei bolado: “Lying is not parkour!”. Até hoje, quando me lembro disso ainda fico decepcionado com a atitude dele. Tudo bem... Foi uma brincadeira! Mas, nem achei legal.
Eram umas 21:30 h e o portão tava fechado. Tivemos que esperar um tempão porque o guarda tinha ido chamar o outro que tava com as chaves. Quando saímos ainda tiramos animo (não sei de onde) pra climbar a parede do Carrefour. Compramos uma lasagnha de microondas e esquentamos no hotel. Foi a melhor lasagnha que eu já comi.

No dia seguinte (18/07/2010) acordamos, fomos na padaria ( e como sempre reclamaram porquê eu sou lento pra comer) e fomos pra faculdade. Chegamos lá pelas 10h. Tinha acabado de começar um momento de “perguntas e respostas” com Vigroux, Dan e Blane. As perguntas giraram em torno de quais seriam as melhores palavras/ valores que sintetizam o espírito do parkour na opinião deles; qual a opinião deles sobre competições de parkour; qual a formação de cada um deles. No final aproveitei pra perguntar pro Vigroux se ele ainda tinha contato com o Belle, e caso ele tivesse qual era a opinião dele sobre o ADAPT. E também se o Hellnight lembrava a ele os primeiros treinos noturnos com o Belle.

Resposta: Sim, eles ainda têm contato. Ele não sabe a opinião do Belle especificamente sobre o ADAPT, mas disse que no geral ele apóia as iniciativas da PKGen. E o Hellnight é muito similar, em intensidade, aos primeiros treinos dele com o Belle.
“... em intensidade...”. Daí fiquei imaginando que os treinos iniciais dos dois deviam envolver muito mais movimentação utilitária do que condicionamento físico puro...

Na hora do almoço só comi uma goiaba que o JC me deu, e aproveitei pra filmar aquele videozinho com o Pipolo (postei o link logo aqui em cima quando falava do Hellnight).

Depois do almoço teve início mais um treino orientado. Como o nosso ônibus ia sair às 17:00h e já eram umas 14h só ficamos acompanhando de perto. Vimos o Blane e o Vigroux quietos num canto e aproveitamos pra perguntar o que eles achavam do parkour brasileiro (se era o que eles esperavam). Descobri que o Vigroux nunca tinha visto vídeo nenhum e não tinha espectativas. Já o Blane tinha visto alguns poucos vídeos (me lembrei de um comentário dele que vi num vídeo do Onii). Mas os dois foram unânimes em declarar que “ existe muita energia, muito potencial, mas que isso tem que ser melhor aproveitado pro parkour brasileiro evoluir mais.” Na hora da despedida entreguei minha camisa branca da Omnis pro Vigroux e o Carlos entregou uma no modelo preto pro Blane.

Tiramos mais umas fotos, nos despedimos do pessoal, subimos mais uma vez o muro, e fomos direto pra Rodoviária. Mas aquilo ficou na minha cabeça ecoando: “melhorar o nível do parkour”. O que eles queriam dizer com isso?! Pular mais longe?! Acho que não. O próprio Dan no dia anterior tinha falado várias vezes “ pular longe é questão de força. O importante e controlar o movimento e não fazer barulho”. Seria isso então? Nos tornarmos “menos estabanados”?... Menos “jogados”? Menos “modas”? Não sei até hoje. Mas já não me sinto mais “ofendido” ou frustrado por ter recebido uma critica tão forte. Talvez seja a verdade mesmo... Talvez sejam eles que não tenham percebido que tem muita gente boa aqui... Talvez estivessem se referindo à imensa maioria (de iniciantes)...


Na rodoviária comi um sanduíche e fiquei conversando sobre matemática e didática com o The Mesc. Foi uma conversa interessante. Pegamos o ônibus. Desmaiei e acordei no Rio. Cansado. Muito cansado. No dia seguinte ia ter que acordar às 6:00 h. Cheguei em caso, tomei um banho e capotei.

Fiquei sentindo as famosas dores musculares por mais ou menos uma semana. E no carioca ainda sentia uma dorzinha em pontada no joelho esquerdo. Felizmente ela passou.

E agora?

Que venha o 6o EBPK, aqui no Rio de Janeiro!

http://www.youtube.com/watch?v=GhVORTr86so


Att Sapo

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Planeta dos Macacos

O dia é sexta-feira, 13 de agosto de 2010. Mais um dia normal. Andando pela rua na hora do almoço vi uma mureta de onde dava pra fazer uma precisão pra um parapeito em cima do túnel que fica perto do Rio Sul. Se eu passasse... Bem, eu não podia passar. Mas era um pulo realmente “fácil”, se é que podemos nos dar ao luxo de menosprezar algum obstáculo. Enfim, era só me concentrar e nada ia dar errado. Tinha pelo menos umas 3 formas diferentes de salvar. O parapeito onde ia aterrisar tinha uns 40 a 50 cm de largura (dava até pra aterrisar de calcanhar... Cabiam uns 2 pés ali!). Me concentrei pra pular e... “Perae, você vai mesmo fazer isso?... Deixa eu filmar.” Daniel. Há esqueci de mencionar que estava com meus amigos Daniel e Santiago. Fiz o pulo. Tava tudo filmado (não que eu fizesse questão, pois como disse era um pulo simples). Tudo bem.
Alguns minutos depois. “VOCÊ É MALUCO?! VOCÊ PODIA TER MORRIDO, SABIA???” ; “EU NÃO ACREDITO!” ; “SÉRIO, DEPOIS DISSO NÃO FALO MAIS COM VOCÊ!”. Foi mais ou menos essa a reação das pessoas pras quais o vídeo foi mostrado (sem eu saber). Depois de algum tempo finalmente entendi do que se tratava. Não se pode mostrar um vídeo com movimentos de parkour, feitos a um certa altura, pra uma pessoa que não pratica parkour. Por mais absurdo que pareça, minha experiência mostrou que 99,99999999999% das pessoas vão no mínimo te chamar de maluco, ou até mesmo fazer você prometer “que nunca mais vai fazer isso...” Acontece que eu faço isso praticamente todo final de semana há algum tempo já. Eu não sou um maluco que decidiu se tacar em cima de um túnel. Não. Mas... Tenta explicar isso pra alguém que não treina parkour. Complicado.
Mais tarde, voltando pra casa, logo que saltei do ônibus às 16:10 h vi uma família de pelo menos 15 macacos. Parei no meio da rua pra olhar. Engraçado como embora todos seguissem num mesmo sentido cada um ia por um galho diferente de uma forma diferente. O “percurso” deles começava com um salto do telhado de uma casa, onde tinham que ficar pendurados de lado (como se fosse um cat leap de uma mão), se balançar e jogar uma precisão pra um tanque. Depois que uns 4 repetiram o movimento teve um que se pendurou e ficou parado pensando até que arregalou os olhos desesperado, morrendo de medo. Voltou e simplesmente tacou uma “precisão suicida” pra uma moita do lado do tanque. Outro ficou agarrado num tronco mais próximo de mim e quando notou minha presença se aproximou. Tentei ficar equilibrado num cano pra ver o que ele achava. Acho que me estranhou. Depois de uns 5 minutos ele continuou a seguir a trilha. Cada macaco fluindo de árvore em arvore do seu jeito. Darwin estava certo!
Ao invés de ficar vendo Partoba ou coisas do gênero as pessoas deveriam assistir mais os macacos. Não existem garantias de que eles vão sempre acertar. Eles também tem seus medos e inseguranças. Cada um deles se move da sua própria forma. Então, porque eles foram “feitos pra isso” e nós não?
Que o flow esteja com os primatas!
Att Sapo

quarta-feira, 21 de abril de 2010

O Parkour Não Existe!

O parkour não existe.
Ouvindo o último podkast (004) sobre método Natural acabei pensando no significado de “ser forte para ser útil”, ou “desenvolver suas capacidades humanas”, como George Hébert dizia... Acabei chegando à conclusão de que o “parkour” ou “parcours Du combattant” non ecxiste!
O método natural pode ser posto em prática: basta se isolar da civilização por um determinado período de tempo. Fugere Urbem. Vai pro meio do mato! Um, dois, três dias, uma semana, um mês... Ou até mesmo algumas poucas horas (quatro ou cinco). O que importa é o contato com o meio natural que te impõe as barreiras e te fornece os instrumentos para sua sobrevivência. Desligar celular. De preferência deixa-lo em casa. Só levar o mínimo possível. E se desafiar. O método natural é possível. Ele ainda existe (ou pelo menos pode existir) nos dias de hoje.
Mas e o parkour? A maioria dos praticantes vive navegando pela internet (sim, eu me incluo nessa, infelizmente), vendo vídeos, tópicos de treinos em comunidades... E só então sai de casa, normalmente com um destino pré-determinado, e muitas vezes o treino se restringe a um espaço limitado: uma determinada praça, um certo parque, etc. E então, aonde está o parkour? Aonde está a eficiência de movimentação? Aonde está a motivação real para treinar?
As origens do parkour são conhecidas pela maioria dos praticantes (felizmente). Vietnã. Guerra do Vietnã. Necessidade de ser rápido para resgatar os companheiros, para salvar vidas. Exposição continua ao risco, em prol do beneficio à vida do outro. Um risco de vida constante, mas que valeu à pena para milhares de soldados, pois assim eles ao menos se sentiram vivos. É o contato com a realidade que abre seus olhos, que te empurra pro abismo da fragilidade da sua própria existência e te obriga a se fortalecer (ou te deixa louco) pra sobreviver. Para poder continuar salvando vidas. Ser forte para ser útil. O parkour existiu no Vietnã. O parcours du combattant foi um evento, um fato histórico (embora seja negligenciado nas aulas de história das escolas).
Ai a historia desse fenômeno que existiu foi contada pra um moleque cheio de fantasias de Homem-Aranha. Ele se chama, como todos sabem (mais do que sabem sobre o Vietnã) David Belle. Fascinado pelo que seu pai contava, David começou a treinar com sua “tchurma”, formando vários grupos com nomes diferentes. Um deles, o Speed-Air-Man (só depois de ouvir um podkast mais antigo percebi que quando os franceses falam Speed-air-man com o soltaque deles soa como “spider-man”). Enfim, no começo era David, Foucan, Thomas, Kazuma. William Belle e vários outros que hoje integram a Parkour Generations, Majestic Force etc,etc,etc. E é engraçado pensar que no inicio do parkour brasileiros gastamos incontáveis horas debatendo se giro é ou não é parkour... Mais engraçado ainda é lembrar que o Belle, declarou em uma das suas entrevistas mais recentes (aquela em que ele tá de ovo virado falando que “parkour já deu o que tinha que dar”) que ele nunca gravou e divulgou os vídeos dele, e que ele nunca teve intenção de virar ator (“simplesmente aconteceu”). Pois bem, o youtube está repleto de vídeos gravados do Belle e da turma dele treinando, alguns dos quais, de tantos giros que tem, podem até ser chamados de “modinha”.





E você se pergunta: isso que o Belle fazia, em parte pra ganhar o respeito do pai, a quem ele se refere como uma pessoa que foi autoritária e rígida, era parcours de combattant? Hum, eu acho que não... Tanto que passou a se chamar “parkour”. Mas a verdade é que a essência que motivava o “parcours Du combattant” (o “parkour-original”) já tinha se perdido há muito tempo. O parkour em meio ao tiroteio e desespero foi enterrado com o final da Guerra do Vietnã. Isso que eles passaram a treinar não era parkour, eram simulações de movimentos que pertenceram ao parkour. E foi baseado nesse “pseudo-parkour” que pessoas de todos os cantos do mundo começaram a “treinar parkour”. Depois de um tempo surgiram outros estilos e influências muito fortes, principalmente vindos da Inglaterra, Bélgica (Speeders) e Rússia( até hoje tem gente que acha o “Dvinsclan foda!” mas não conhece o Oleg, fazer o que...).

Essa emergência brutal do parkour patrocinada pela mídia abriu campo pra interação, e chamou mais atenção para, os tricksters, os b-boys, os ginastas. Aqui no Rio até há pouco tempo a UERJ era um ponto de encontro de ginastas, circenses, b-boys, giradores e “parkourzeiros”. Mas, veja bem, não estou dizendo que o parkour não existe porque se miscigenou com outras “artes do movimento”. Estou dizendo que ele não existe pois todo o conceito no qual se baseia não existe mais. Vivemos uma outra realidade, muito mais cômoda. Isso é inegável!

Mas, “eu quero treinar parkour!”... Vai ficar querendo “champs”. Você pode ate treinar os movimentos semelhantes aos do parkour e “correr loucamente no flow-mais-gringo-da-face-da-terra”:





Mas nada disso vai ser o verdadeiro parkour, pois “ser forte pra ser útil” não vai ser uma verdade literal (no máximo algo filosófico, subjetivo ou com implicações indiretas). Como treinar o parkour então? Se aliste e vá à guerra (se bem que com a quantidade de tecnologia usada no Iraque vai rolar pouco parcours Du combattant lá).


E Que o flow esteja com você!
Sapo
Rio, 21./04/2010

segunda-feira, 1 de março de 2010

Questionário para Artigo de Parkour

Segue algumas perguntas que a Tathiana Maria aqui do Rio fez no começo do ano pra alguns tracers. A finalidade era fazer um artigo relacionando comportamento de tribos urbanas, parkour e consumismo. O artigo ficou muito interessante, e eu achei que seria válido postar minhas respostas que enviei por e-mail pra ela.


Idade e o que você faz

Me chamo Lucas Oliveira Mourão, tenho 19 anos e estudo Medicina. No parkour fui apelidado como Sapo.


O que é o parkour para você?



Parkour pra mim é tudo e nada ao mesmo tempo. Ele representa tantas coisas na minha vida e na minha personalidade, que acredito que qualquer definição não faria jus. Ele já faz parte de mim de um modo tão intenso que não chego sequer a pensar “vou treinar parkour”. Penso simplesmente “quero chegar até ali”, “quero subir até aquele ponto”, ou na maior parte do tempo “quero viver cada momento com a atenção que ele merece… quero ser simples e ao mesmo tempo eficiente”, “quero aproveitar ao máximo minhas possibilidades humanas”. Por que mesmo quando você não se locomove em um percurso onde existem pulos e muros para subir, você, como tracer consciente do que faz, pratica parkour. Recentemente li um texto de um traceur que treinou com Stephane, e ele relatava que ficou maravilhado com a forma do Stephane Vigroux andar na rua! Ele sempre buscava a forma mais benéfica de caminhar e desviar das pessoas e objetos. É justamente esse o maior treino de um tracer: a ausência de obstáculos visíveis.

Muitas vezes o treino real é um esforço de superação e aprimoramento pessoal em outros campos da vida. É uma jornada silenciosa para tornar-se uma pessoa melhor: melhorar a forma como se relaciona com os outros, a forma como aceita a si mesmo (até mesmo como um meio para o auto-conhecimento, pois é preciso se conhecer para poder vencer as próprias limitações); a forma como vê o estudo/trabalho; e até a busca da sua missão, daquilo que você quer deixar no mundo.

Uma forma interessante de pensar o parkour seria uma maneira de ver o mundo como um terreno de possibilidades. Não só possibilidades de movimentação, mas todas a possibilidades de superação pelas quais sua alma anseia. Nessa busca pela liberdade um traceur acaba inspirando e ajudando muitas outras pessoas. Por que de fato existe alguma coisa bela no ato de se superar, de encarar seus demonios (medos e inseguranças) internos. Não é facil pra ninguem treinar o verdadeiro parkour, e nem deve ser. Pois é superando estas dificuldades que um tracer mostra que é possível ser melhor, que os limites são ficções da sociedade, e que todos podemos fazer dos nossos sonhos realidade, e acreditarmos e nos dedicarmos a eles.

Por fim, acredito que parkour é só um nome. Acho importante sabermos suas origens: o método natural de educação física, os treinos do pentatlo do exercitos francês e toda a decicação do pai de David (Raymond Belle) para definir o principio básico de movimentação eficiente e “ser forte para ser útil”. Mas não podemos nos limitar a um molde, a movimentos pré-determinados que vemos nos videos antigos do David Belle (embora inicialmente a disciplina tenha surgido a partir disso). Devemos entender parkour como nossa forma de liberdade de crença em nós mesmo.



O que você acredita que outras pessoas pensam sobre o parkour?



Os não-praticantes de parkour reagem de diversas formas.

Tem aqueles que estão dispostos a nos ouvir (estes são em número cada vez maior, talvez pela divulgação, ainda que precária, feita pela mídia), e procuram entender os principios básicos. Estes muitas vezes acabam se mostrando maravilhados com as possibilidades do parkour.

Tem também os que, infelizmente, são a maioria… Os que ou dizem que “ isso é treinamento pra bandido!” ou “ isso é coisa de maluco! Você vão se quebrar fazendo isso!”. Estas pessoas, ao meu ver, ou não tiveram oportunidade de saber o que realmente é o parkour, ou até tiveram essa oportunidade mas escolheram continuar ignorantes em relação ao assunto.

No final das contas é um questão de personalidade. As pessoas que tem mais segurança em quem ela são e se acham livres pra ter suas próprias ideias acabam aceitando o parkour como algo importante e que merece respeito. As pessoas que não se sentem tão seguras quanto sua personalidade (acham que tem que viver segundos moldes sociais, com medo de serem chamadas de estranhas) tendem a discriminar o prática do parkour antes mesmo de ouvirem o que os praticantes têm a dizer.



No One giant leap, o Bacon falou sobre a ideia do traceur se tornar autônomo, e de que as coisas (produtos) não fazem um traceur, mas o traceur que faz o parkour, e falou sobre o mundo que se quer deixar daqui para frente.



Que tipos de roupas/produtos um traceur não usaria/compraria?




Isso depende muito. Existem traceurs e traceurs. Por mais que o principio básico do parkour seja “ser forte para ser útil”, o que incluí ser um cidadão responsável, muito pouco da filosofia do parkour é discutida durante os treinos. Dessa forma, é possivel que um praticante que vai nos treinos continue sendo ignorante em relação ao aquecimento global e a várias questões sociais. Acho que a pergunta que devemos fazer é: este praticante, que vai nos treinos com frequência e progride, mas não pensa sua vida toda como sendo um treino, e não tem consciência ambiental, ele epode ser chamado de traceur?

Sob o ponto de vista da filosofia do parkour, diria que ele não é um verdadeiro tracer.


você acredita que tenham produtos ou serviços que sejam exclusivos de um traceurs (se sim, diga quais)?!


Não acho que nada no mundo seja exclusivo dos traceurs. Nem acho que nada deveria ser exclusivo. Somos todos seres humanos com os mesmo direitos sobre a terra, mesmo que muitos ainda não tenham descoberto uma forma de se expressar e ser livre (incluindo milhares de atividades além do parkour).



Você acredita que a prática do parkour serviria como resistência ao consumo?!




Nenhum traceur deixa de ir ao super-mercado, nem de comprar roupas, assinar tv a cabo e internet banda larga. A simples prática do pakour como atividade física não reflete atitudes de responsabilidade ecologica ou anti-materialistas. Mas possibilita espaço para a reflexão (como o discurso do Bacon no One Giant Leap) e talvez diminuição do consumo de certos produtos.



Não sei se você se lembra de uma campanha da Armadillo em 2007 junto com a Tobu. Eles criaram uma coleção outono/inverno "inspirada" na prática do parkour. Você lembra ou sabe desse assunto?! O que você pensa sobre a utilização do parkour associado a uma marca de roupas?!



Eu cheguei a saber dessa campanha e até vi umas fotos… Sou meio suspeito pra falar de qualquer coisa que envolva moda, por que eu simplesmente não suporto! Mas acho que no final das contas a maioria das campanhas que usam o nome “parkour” ou “free running” só visam atingir um público maior, com um assunto que infelizmente virou moda. Infelizmente porque a forma de divulgação predominante não fala dos preceitos verdadeiros e transmite a imagem de pessoas sem juízo que um dia resolveram sair pulando prédios!

Mas recentemente estão surgindo formas de divulgação mais comprometidas com o verdadeiro parkour e marcas ainda não totalmente voltadas para o parkour, mas que são em grande parte usadas pelos praticantes, como o exemplo do tennis Kalenji e do Vibram Five Rangers (sem querer fazer propaganda!).

Sapo (May the flow be with you!)

sábado, 9 de janeiro de 2010

"Por que você pula?" (Uma breve história do Parkour)

Vivemos em um mundo de motivos. Se você compra alguma coisa é porque vai usar, porque gosta ou porque vai presentear alguém. Se você trabalha é porque tem contas pra pagar. Se você anda de um jeito é porque está se sentido de tal forma. Se tava estressado é porque no seu horóscopo (que palavra mais feia!) do dia tava escrito que não era “um bom dia para relacionamentos”. Se você sai de casa é porque vai se encontrar com alguém ou comprar alguma coisa. Estamos aprisionados às obrigações que inventamos para nós mesmos.

Como é raro ver alguém que sai de casa simplesmente por sair. Alguém que acredita nos milagres diários que acontecem pelas ruas: o sorriso de um criança; algum vovô engraçado falando besteira (e quem sabe até nisso haja ensinamentos e sabedoria); um nascer ou pôr-do-sol que foto nenhuma jamais conseguiu captar; a canto de um pássaro; o vento nas folhas; a ar puro entrando nos pulmões; o movimento incessante das ondas e das nuvens...

Como é raro alguém que acredita que faz seu próprio caminho e pra isso não precisa se justificar pra ninguém: faço o que faço porque sou quem sou, e sou quem sou porque acredito no que penso. Tão simples.

Não acredito em bruxarias, alinhamentos de planetas, filmes sobre o fim do mundo, mal olhado, macumba, promessa pra santo, que não posso fazer isso porque não dormi direto, ou porque to com dor nas costas. Não acredito que eu tenho um limite. Muito menos que tenha que apelar pra alguma coisa ou que meu destino já esteja traçado. Não acredito que tudo tem que ser feito num molde, nem que existam verdades absolutas e imutáveis entre os homens. Tão simples.

Acredito que posso me locomover como eu sentir necessário. Que posso treinar,e só... Sem “finalidades”: sem competições, sem premiações, sem reconhecimento, e muitas vezes sendo desrespeitado.

Tudo isso muito bonito, e verdadeiro... É realmente o que eu penso. Mas ainda persiste o zumbido no meu ouvido “Por que você treina?”. “Por que você pula?” O que existe dentro de você que te faz pensar o que você pensa e te leva a agir como você age...? De onde vem o seu modus operantis ?

Isto me remete às velhas perguntas: De onde vim? Quem eu sou? Para onde vou? E pode parecer ridículo, mas eu desisti há muito tempo de responde-las. Não precisou muito. Bastou perceber que não posso responder nenhuma delas.

De onde vim? A única forma de respondê-la seria tendo memórias de antes de minha vida... O que infelizmente ( ou felizmente) não é o caso. E, não, eu não acredito em vidas passadas.

Quem eu sou? Essa já “respondi” lá em cima: sou quem eu sou porque penso o que penso. Mas, como não acredito que nada entre os humanos seja perpetuo, aquilo que penso hoje pode ser o oposto do que penso amanha. Logo, não existe uma resposta para “quem eu sou”, existem milhares de respostas. Pois em uma vida frequentemente há milhares de dias e para cada dia o ser que vive é algo diferente. Ou seja, podemos ser tão infinitamente diversos que não seria possível expressar nossa complexidade (garantida pela liberdade) na forma de uma resposta...

Para onde vou? Ou pra de baixo da terra ou vai virar pó num forno que chamam de crematório. No final dá no mesmo: pó. Mas o pó é só a parte orgânica do meu ser... A parte que contém tudo aquilo que você pensava, pra onde vai? Hum... Ai se eu acreditasse em assombrações ! Parava uma delas só pra perguntar se ela não fica entediada de ficar vagando moribunda pela Terra, puxando os pés das criancinhas enquanto elas dormem...

Voltando à questão da origem do modus operantis, da forma de cada um de ser, o que no seu caso provavelmente inclui pular já que vocês está aqui. Eu gosto de pensar que a Vida não tem um sentido necessariamente. Ela têm o sentido que você dá pra ela. Mas pra dar sentido a alguma coisa é preciso estar preenchido por outras várias coisas... Matéria-prima!

Neste caso, seriam as memórias e experiências vividas que me fazem querer pular? Era porque eu via Tartatugas Ninja, Cavaleiros do Zoodíaco, Power Rangers e Homem-Aranha? Por que na minha cabeça pular era quase que um ato heróico contra o Mal? Talvez em parte sim.... Mas.... Não, o buraco é mais fundo que isso!



As filhas do mestre Splinter! (versão "maldade do ghetto, yo!)


Também tem a história dos instintos mais primitivos do homem. Hum, disso eu gostei! O cérebro primitivo. Algum resquício de informações de sobrevivência (um “manual de sobrevivência”) que pela seleção natural (Salve Darwin!) ficou armazenado no formato de cérebro que hoje usamos ( tá...nem todos nós). E falando em pular como sobrevivência nos tempos do Flinstones (por favor me avisem se eu tiver perdendo a noção nas piadas sem-graça) não podemos deixar de falar do famoso Método Natural de Educação Física desenvolvido, como reza a lenda, pelo francês George Hébert. Ele consta de atividades como pular, subir árvores, nadar, correr e arremessar. Seria um caminho para que pudéssemos condicionar nosso corpo e desenvolver o nosso potencial humano, as nossas capacidades. Uma tentativa do homem moderno de recuperar as habilidades que os primeiros homens tinham no sangue, porque precisavam delas pra sobreviver (droga! eu falando da beleza das coisas sem motivos e surge um motivo...). Melhor parar o parágrafo por aqui mesmo...





Hébert também defendia a moralização, a repetição a fim de melhorar a técnica, e a expressão livre de sentimentos de alegria como cantar, chorar, etc.


À medida que houve uma explosão de produção de tecnologia surgiu o homem moderno. Acostumado a tomar cerveja e passar horas na frente do computador. Mas ainda haviam os caras durões que curtiam ser old school (talvez por “ouvirem” a voz dos instintos primitivos dentro deles). Dentre ele surgiu um prodígio bombeiro e combatente da Guerra do Vietnã. Seu nome era Raymond Belle e segundo as notícias de jornais da época o cara era uma lenda viva. Uau! Ouvi até dizer que ele socava crânios dos mortos durante a guerra (até quebrá-los) pra ganhar mais força! Tá, admito que nisso ele exagerou... Mas não estamos aqui pra discutir a possível loucura que a guerra desencadeou nele e que causou seu suicídio anos mais tarde. Estamos aqui para agradecê-lo por ter juntado os treinamentos de pentatlo do exercito Frances com as noções de método natural e ter moldado essas idéias (que até então eram coisas soltas) pra chegar a um concenso disso tudo. Ter dito ao filho dele, David Belle, que “lá no Vienã haviam vários tipos de “percurso” ( parkour) que eu fazia, alguns para resgatar os outros, outros pra fugir de ataques etc etc etc”. Provavelmente este homem não criou intencionalmente algo... Não estabeleceu regras, normas e pontuações (mas hein?! Porque raios existem então essas porcarias de competições Bayclard?!). Ele simplesmente, condicionado pela necessidade de sobrevivência (de novo um motivo, e o mesmo: sobreviver) se moveu para salvar sua vida... E é claro, foi sensato o bastante para perceber que havia um único preceito por trás disso tudo: mover-se da forma mais eficiente possível!
É, pois é, aquela história batida de ir do ponto A pro ponto B da forma mais eficaz possível e depois conseguir voltar....



Parcours du combatant


Calma ae, antes de fazer aquela cara feia e entrar no youtube pra ver vídeos do Doyle e do Ilabaca fazendo coisas não só eficientes, mas muitas vezes bonitas e engraçadas (essa criatividade anormal e talento absurdo pra editar vídeos que fez dos britânicos os monstros mais temidos sobre a face da Terra) dê uma lida no que vou falar.




tá, vai lá... mas depois volta!


Se o Raymond Belle não tivesse vindo com essa história de eficiência pra cima do filho dele, o parkour hoje não iria existir... Por mais que os britânicos tivessem idéias e a mente forte que eles têm pra acreditar neles mesmos, se alguém antes não tivesse definido, nomeado uma forma de movimentação, eles não iam sair pulando pela rua ( mas iam continuar sendo monstros na ginástica olímpica, os malditos!). Então, porque na década de 90 um cara chamado David Belle surgiu na TV e falou da história do “parcours du combatant” e da sua essência de “être fort pour être utile” ( e alguma alma abençoada postou essa entrevista lá nos primórdios do youtube), o mundo inteiro passou a ter um exemplo pra poder ser livre... Pra libertar esse instinto primitivo que nos faz ter vontade de pular. E o mais importante: aprender a moldá-lo, assim como um reflexo adquirido!

Aprender a enfrentar esse inimigo que existe dentro de nós mesmos e que insiste em nos dizer como somos frágeis, como temos medo de altura e como podemos cair a qualquer hora. Essa é a beleza do “pular”, que na verdade inclui qualquer forma de desafio de locomoção: a nossa natureza humana. A existência, a possibilidade do erro. É disso que o Ilabaca falava quando dizia sobre “escolher não cair”. Se a possibilidade da queda não existisse também não haveria a possibilidade de acerto.





Raymond Belle





David Belle




Daniel Ilabaca (dispenso comentários...)


Hoje (com excessão dos que estão ainda estão lutando nas guerras) não temos mais essa necessidade de movimentação (de “pular”) condicionada pelo motivo da sobrevivência. Mais ainda pulamos... Por quê raios então ?! Porque queremos ser fortes e úteis? Queremos estar prontos para agir em uma situação de perigo real? Desejamos nos tornar, como disse Belle (o filho), a arma que nós mesmos guiamos?

Na maioria das vezes não (mas admito que todos estes motivos são muito nobres e os que escolhem este caminho de sacrifícios merecem meu respeito e admiração...leia-se: os cabas machos do Nordeste).




Treino do Caba Macho ( Duddu do Ybyanga/ GT)


O próprio Belle em uma entrevista mais recente (2009) intitulada “Eu salto de telhado em telhado” disse que não via motivo em passar a vida toda treinando para pode ser útil em uma situação de perigo, já que podia ser que essa situação nunca chegasse. Ele chegou a comparar este treino obcecado pela eficiência e utilidade com um velho lutador de artes marciais que passou a vida dando golpes no ar, mas nunca chegou a enfrentar o inimigo. Essa foi, pelo que entendi, a justificativa dele para o fato de que cada vez menos se interessa pelo parkour... Revoltas à parte, eu agradeço ele ter falado o que falou, e ter mostrado pro mundo o parkour dele...




Entrevista "Eu salto de telhado em telhado", com legendas feitas pelo Duddu, e com a qual colaborei!


Não poderia deixar de citar mais um trecho dessa entrevista, no qual ele diz que na vida não existem campeões: o boxeador que ganha medalhas pode sair na rua e ser esfaqueado. A vida em si é um risco constante, e o parkour por ser praticado nas ruas, em contato com a realidade, exige atenção e dedicação total! Foco.

Enfim, mais ou menos o que o Blane diz no seu post sobre os 301 monkey-precisions. Se ele errasse um mokey-precision ia ter que voltar do zero até fazer 300( o 301 ele fez em homenagem a uma velhinha que ficou falando que ele ia cair). Ele concluiu que enquanto ele permanecesse focado, a Lei das Médias (que diz que quanto mais vezes você executa um movimento suas chances de erro aumentam) não era aplicada. Aliás, grande Blane! Ele que usou a frase “Power is nothing without control” com tanta autoridade que cheguei a acreditar que fosse dele, até que o Aquaman me disse que essa frase é um jargão antigo (muito usado na engenharia) e eu perdi todo respeito que tinha por ele... Ahhhh, claro que não! Inclusive se você olhar pro titulo dessa página vai perceber uma paródia dessa frase “do Blane”. Enfim...

Na maior parte do tempo “pulamos” por que nos sentimos livres, por que nos divertimos, por que gostamos de buscar desafios... Por vários motivos, que podem parecer pouco, mas que de tão “muito” que são não consigo expressar com palavras. Talvez seja um desejo da nossa alma. Talvez seja uma forma de mostrarmos para nós mesmos que somos capazes... De sentir que existe algo de real lá fora, e que podemos agir. Que podemos existir. Nos fortalecer física e mentalmente. Ou como um dia me falou o Leon: a gente treina parkour pra se divertir. Não conheço ninguém que treina “para ser útil”.

Seja qual for o motivo, não devemos nos esquecer dos motivos iniciais (sobreviver, pegar frutas, caçar!), e quando hesitarmos e pensarmos “isso não é pra mim, eu não nasci macaco....” devemos nos lembrar dos instintos que herdamos. Sim, nós somos capazes! Sim, nós acreditamos no movimento! Sim, nós somos livres para construir nossas vidas! Então, talvez, mesmo que nosso motivo para treinar não seja se fortalecer, isso acaba acontecendo naturalmente. E chegamos às nossas metas mesmo não estando conscientes de que as buscávamos. Como diz o provérbio: às vezes somos apenas uma folha sendo levada pelo vento...





E que o flow esteja com vocês!

Sapo. Guarapari, 9/01/2010